Sindicatura da vitrine ou da prática

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Não é de hoje colegas, que vivemos a era da exposição. Nunca foi tão fácil produzir conteúdo, alcançar milhares de pessoas e construir uma imagem pública de autoridade em qualquer área de atuação. O universo condominial não escapou desse fenômeno. Síndicos, administradoras, advogados, consultores e fornecedores disputam diariamente a atenção de um público cada vez mais conectado.

Mas existe uma reflexão necessária que poucos de nós fizemos, até que ponto o esforço para construir relevância digital é compatível com o exercício eficiente da própria sindicatura? A pergunta não é trivial. Em praticamente todos os segmentos econômicos, a presença nas redes sociais possui uma finalidade clara, a conversão. O influenciador converte seguidores em vendas de cursos. O advogado converte audiência em clientes. O comerciante converte alcance em faturamento. O fabricante converte visibilidade em demanda por seus produtos.

A lógica é simples, relevância gera confiança, confiança gera negócios. Mas, na sindicatura, entretanto, a dinâmica é diferente. O síndico, em tese, não vende um produto. Não comercializa uma mercadoria. Nem mesmo vende sua candidatura. Ou pelo menos não deveria. A eleição de síndico depende de um processo de escolha coletiva realizado por uma assembleia condominial. Sua função não é convencer consumidores, mas administrar patrimônios, pessoas, conflitos, contratos, riscos e recursos financeiros. Isso cria uma peculiaridade interessante. Enquanto muitos profissionais dependem diretamente da visibilidade para exercer suas atividades, o síndico depende principalmente da qualidade da sua gestão.

A grande questão surge quando o tempo investido na construção da imagem digital começa a disputar espaço com o tempo necessário para o exercício da sindicatura. Produzir conteúdo relevante exige dedicação. É preciso estudar pautas, gravar vídeos, editar materiais, responder comentários, acompanhar métricas, alimentar algoritmos, criar estratégias de engajamento e manter constância. Não se trata de uma atividade secundária. Trata-se de uma ocupação que pode consumir horas diárias.

No caso do síndico profissional, especialmente do “multisíndico” que administra diversos empreendimentos simultaneamente, surge uma equação delicada. Afinal, cada hora dedicada à produção de conteúdo é uma hora que deixa de ser utilizada em visitas técnicas, análise de contratos, acompanhamento de obras, atendimento aos moradores, fiscalização de prestadores de serviços ou capacitação profissional.

Não existe qualquer problema em possuir uma presença digital ativa. Pelo contrário. As redes sociais podem cumprir um papel importante na educação condominial. Podem esclarecer dúvidas, combater mitos, aproximar nós, colegas de sindicatura, da sociedade e elevar o nível do debate sobre convivência, legislação e gestão patrimonial.

Durante os primeiros anos da minha atuação, por exemplo, encontrei enorme satisfação em produzir conteúdo destinados a explicar conceitos frequentemente confundidos pelo senso comum. Diferenças entre direito condominial e direito de vizinhança, limites da atuação do síndico, responsabilidades das unidades privativas, atribuições da administração e inúmeros outros temas que geravam conflitos recorrentes entre moradores.

Nesse aspecto, as redes sociais funcionam como uma ferramenta pedagógica valiosa. O problema surge quando a busca pela relevância digital se transforma em um fim em si mesma. Curtidas não substituem resultados. Seguidores não substituem governança. Alcance não substitui capacidade técnica. Engajamento não substitui gestão. A ilusão contemporânea consiste em acreditar que uma pessoa é competente porque é conhecida, quando muitas vezes ela é apenas conhecida.

A autoridade verdadeira continua sendo construída no cotidiano silencioso das decisões corretas, dos problemas resolvidos, dos conflitos administrados, dos contratos fiscalizados e das contas equilibradas. A boa sindicatura raramente é espetacular. Na maior parte do tempo, ela é discreta, técnica e quase invisível. Quando tudo funciona, poucos percebem o trabalho realizado. Quando algo falha, todos percebem. Talvez por isso exista uma tentação constante de buscar reconhecimento em ambientes onde os aplausos são mais imediatos.

Para aqueles que desejam construir uma presença digital consistente sem comprometer o desempenho profissional, existe um caminho bastante razoável, delegar. Assim como um condomínio contrata especialistas para áreas específicas, o síndico pode contar com profissionais de comunicação, marketing e gestão de mídias sociais. Dessa forma, a estratégia digital permanece ativa enquanto o gestor concentra sua energia naquilo que ninguém pode fazer em seu lugar: administrar bem os condomínios sob sua responsabilidade.

Antes de investir horas na produção de conteúdo, vale fazer uma pergunta simples, qual é o objetivo de conversão dessa presença digital? Se a resposta estiver relacionada à educação, ao compartilhamento de conhecimento ou ao fortalecimento institucional da atividade, existe um propósito claro. Mas se a busca for apenas por números, curtidas ou reconhecimento, talvez seja necessário lembrar que popularidade e competência não são sinônimos. No final das contas, os melhores síndicos não são necessariamente aqueles que aparecem mais. São aqueles que entregam mais. E entre a vitrine e a oficina, é a oficina que sustenta a reputação de longo prazo.

Rogério de Freitas é síndico profissional, graduado em Administração de Empresas e pós-graduado em Marketing e Gestão Empresarial, Coach Integral Sistêmico

 

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