Existem perguntas que não procuram respostas. Procuram espelhos.
Em muitos debates, uma questão aparentemente objetiva é apresentada de maneira aberta o suficiente para criar aquilo que chamo de "espaços vazios". São lacunas de informação, contexto ou interpretação que cada pessoa preenche com aquilo que traz dentro de si, experiências, convicções, expectativas, receios, valores e até preconceitos.
O fato permanece o mesmo. O que muda é o olhar de quem o observa. Diante de uma informação incompleta, o ser humano tende a preencher as lacunas. A mente não gosta do vazio. Quando não encontra elementos suficientes para compreender uma situação, cria hipóteses e constrói uma narrativa que pareça coerente.
Por isso, muitas vezes, uma opinião revela menos sobre o objeto analisado e mais sobre aquele que opina. A mesma situação pode ser interpretada como responsabilidade ou irresponsabilidade, coragem ou imprudência, solidariedade ou interesse pessoal. O fato é um só. As interpretações são inúmeras. É justamente nesse ponto que vejo um risco importante nas assembleias condominiais.
Recentemente, um condômino me solicitou que o material que seria utilizado em uma assembleia fosse encaminhado previamente aos demais condôminos, para que pudessem se preparar para a discussão.
A princípio, parece uma solicitação absolutamente razoável. Afinal, quanto mais informação, melhor. Entretanto, entendi que, naquele caso, o envio antecipado do material, além do edital de convocação e da pauta da assembleia, poderia produzir um efeito contrário ao desejado. Minha preocupação estava relacionada aos espaços vazios.
Ao receber previamente um material sem a possibilidade imediata do debate coletivo, cada condômino poderia interpretá-lo a partir de suas próprias referências. As lacunas seriam preenchidas individualmente, e cada pessoa poderia construir sua própria narrativa antes mesmo de ouvir as explicações, os argumentos e os diferentes pontos de vista que surgiriam durante a assembleia.
Assim, quando chegássemos ao momento da discussão, talvez já não estivéssemos diante de pessoas abertas a compreender o tema, mas diante de pessoas que já teriam chegado a uma conclusão. Existe uma diferença entre chegar à assembleia preparado para pensar e chegar preparado apenas para defender aquilo que já se decidiu pensar.
A assembleia deveria ser um espaço de construção coletiva, e não apenas o lugar onde opiniões previamente formadas são colocadas em votação. Seu valor está justamente na possibilidade de que a informação seja apresentada em contexto, questionada, esclarecida e confrontada com diferentes perspectivas. Não se trata de negar informação ou restringir a transparência. Trata-se de reconhecer que informação sem contexto pode produzir interpretação, e interpretação antecipada pode produzir convicção.
Por isso, entendo que o edital de convocação, com uma pauta clara e objetiva, deve informar os condôminos sobre aquilo que será discutido e deliberado, preservando para a assembleia o espaço de apresentação, esclarecimento e construção coletiva. O risco do encaminhamento antecipado de materiais é que o condômino chegue à assembleia municiado muito mais de suas próprias interpretações do que de uma compreensão coletiva do problema.
Talvez, então, a prudência esteja justamente em preservar alguns espaços vazios até que o diálogo aconteça. Uma assembleia não deveria ser apenas a soma de indivíduos defendendo suas próprias certezas. Deveria ser o espaço em que diferentes indivíduos têm a oportunidade de construir, juntos, uma decisão que represente a coletividade.
Rogério de Freitas é síndico profissional, graduado em Administração de Empresas e pós-graduado em Marketing e Gestão Empresarial, Coach Integral Sistêmico





