O Terceiro Neutro

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Ao longo dos anos na sindicatura, entre assembleias acaloradas e silêncios cheios de significado nos corredores, fui percebendo algo que no início passava quase despercebido, existe uma vantagem interessante em não pertencer ao quadro de condôminos. Não digo isso como quem descobre um atalho mágico, mas como quem identifica uma posição privilegiada de observação. É o que passei a chamar de postura do “Terceiro Neutro”, aquele que não está dentro das disputas, mas também não está fora da responsabilidade de decidir.

E é importante fazer uma ressalva justa, reconhecer essa vantagem não diminui, em absolutamente nada, a atuação do síndico orgânico, aquele que mora no condomínio. Muito pelo contrário. Sei, pela prática, o quanto é desafiador decidir sobre situações que envolvem vizinhos, amigos ou até desafetos de convivência diária. O síndico morador, inclusive, quando se propõe a adotar a postura do Terceiro Neutro, demonstra um nível de maturidade e disciplina admirável, porque precisa vencer, todos os dias, a tentação natural de decidir a partir das relações.

O ponto central é que o Terceiro Neutro não é alguém que se omite, mas alguém que decide sem se deixar capturar pelas emoções do ambiente. Ao não carregar vínculos prévios com os envolvidos, o síndico profissional ganha uma espécie de “campo limpo” para analisar os fatos. Ele não precisa equilibrar decisões com a necessidade de manter a boa convivência no elevador no dia seguinte. Isso permite que suas escolhas se apoiem com mais firmeza nos critérios, nas normas e no interesse coletivo.

Com o tempo, percebi que essa posição gera um efeito quase silencioso, mas muito poderoso, as decisões passam a ser mais respeitadas, mesmo quando não agradam. Isso porque a percepção de imparcialidade muda o eixo do conflito. As discussões deixam de ser sobre pessoas e passam a ser sobre regras. E quando o debate sobe esse degrau, o condomínio deixa de ser um campo de disputas pessoais e se aproxima mais de um ambiente de convivência organizada.

No fim das contas, o que aprendi é que não pertencer, nesse contexto, pode ser uma forma muito eficaz de servir. O síndico profissional, ou orgânico, ao ocupar esse lugar de Terceiro Neutro, consegue sustentar um equilíbrio que nem sempre é fácil para quem está emocionalmente inserido na dinâmica do condomínio. Ainda assim, essa não é uma exclusividade. É uma postura. E, seja de fora ou de dentro, todo síndico que consegue, mesmo que em parte, se colocar nesse lugar, eleva o nível da gestão e contribui para uma convivência mais justa e previsível para todos.

Rogério de Freitas é síndico profissional, graduado em Administração de Empresas e pós-graduado em Marketing e Gestão Empresarial, Coach Integral Sistêmico.

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