Tenho percebido em mim um comportamento curioso, que desconfio não ser exclusivo, mas compartilhado por muitos colegas de sindicatura. É aquele instante sutil em que a fala do outro acende um alerta interno. Você está ali, trocando uma ideia ou consumindo um conteúdo de forma despretensiosa quando, de repente, surgem expressões como “isso faz sentido pra você?”, “essas são as últimas unidades” ou “veja quem já comprou!”. Não importa se a frase vem embalada em entusiasmo, sutileza ou simpatia. Há algo nessa combinação entre clichê e intenção que faz o meu cérebro desligar a escuta ativa e encaminhar toda a informação para um verdadeiro spam cognitivo.
Nesse momento, o discurso deixa de pertencer àquela pessoa e passa a soar como uma gravação genérica, produzida em série, replicável e automatizada. E o efeito, ao menos para alguns de nós, talvez você se reconheça aqui. É paradoxal, quanto mais alguém tenta persuadir, mais evidencia que está tentando persuadir. O véu cai. A autenticidade se dissipa. O diálogo se transforma em propaganda. E, instintivamente, acionamos o comando mental de “arquivar como irrelevante”.
A exposição massiva a esse modelo de comunicação, potencializada pelo uso intensivo das redes sociais, tem produzido um efeito colateral claro: rejeição. E vale destacar que o incômodo não está no produto, na solução, no serviço ou na oferta em si. O desconforto nasce da sensação de estarmos diante de uma arapuca retórica. Há uma quebra de confiança e um deslocamento do foco. Já não prestamos atenção no conteúdo, mas no mecanismo por trás dele. Não reagimos à mensagem, e sim aos sinais de que ela tenta nos conduzir, de forma previsível, a um resultado previamente definido.
Essa sensação de estar sendo enganado não nasce de uma mentira explícita, mas da percepção de um discurso artificial, guiado por gatilhos previsíveis, que aciona um filtro de spam interno e faz com que o excesso de persuasão transforme qualquer argumento posterior em simples ruído.
O aspecto mais frustrante dessa percepção, para mim, é bastante prático. Há uma necessidade genuína de ser atendido, nos condomínios, por profissionais que saibam ouvir, compreender o problema e apresentar caminhos técnicos para solucioná-lo, sem que a conversa esteja subordinada, desde o início, ao cumprimento de uma meta comercial. Não se trata de exigir um atendimento personalizado ou diferenciado, mas de esperar uma postura confiável, técnica e orientada à solução, não à conversão em venda.
É evidente que precisamos ouvir quem oferece soluções ao mercado condominial. Essa troca faz parte da capacitação permanente e da boa prática da sindicatura. O problema é que tem se tornado cada vez mais difícil dedicar tempo a essa atividade tão essencial quando o acesso ao conhecimento vem embalado, quase sempre, em discursos previsíveis e saturados.
Por isso, deixo aqui uma recomendação sincera, uma abordagem mais original, que escape dos clichês clássicos das chamadas “armas da persuasão”. Menos script. Mais substância. Menos gatilho. Mais verdade.
Rogério de Freitas é síndico profissional, graduado em Administração de Empresas e pós-graduado em Marketing e Gestão Empresarial, Coach Integral Sistêmico





