“Agir pelas Costas”, o que a série Suits ensina ao ecossistema condominial

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Gosto muito da série Suits. Para quem não sabe do que estou falando, é uma dessas séries de TV americana que assistimos no streaming. Além da elegância do roteiro e da astúcia de seus personagens, há um aspecto cultural que sempre me chamou atenção, a intolerância ao ato de “agir pelas costas”. Naquele universo jurídico, nada é mais grave do que ser surpreendido por uma atitude tomada sem o conhecimento ou consentimento das partes envolvidas. É uma afronta direta à lealdade, valor supremo na cultura corporativa da série.

Os personagens da série Harvey Specter, Donna Paulsen, Louis Litt e companhia podem discordar, conspirar, se exaltar, mas há uma linha ética invisível que não se cruza: não se age pelas costas de quem está no mesmo jogo. Quando alguém o faz, o conflito é inevitável, e a narrativa se constrói justamente em torno da defesa dessa integridade interna.

Essa ideia, que parece apenas um detalhe dramatúrgico, é na verdade um retrato de uma cultura organizacional madura, a arte imita a vida, pelo menos em algumas culturas. Ali, a confiança não é um adereço, é um ativo. E é justamente esse traço que falta, muitas vezes, no universo da sindicatura e da gestão condominial.

Neste mês, fui surpreendido pela atitude de uma administradora à qual havia comunicado a rescisão contratual, com antecedência de 60 dias, conforme previsto. Durante esse período, a administradora entrou em contato com um condômino que detém um número significativo de unidades e solicitou a ele uma procuração para representá-lo na Assembleia Geral Ordinária. Sei que não preciso explicar que foi esse fato que me inspirou a escrever essas linhas.

No momento da eleição para síndico, ela utilizou essa procuração para votar em uma candidata sem qualquer vínculo prévio com o condomínio, apresentada e favorecida por ela, com o evidente objetivo de me substituir e, assim, manter o contrato da administradora. Tal ação foi realizada em desacordo com os interesses do próprio condômino representado, que posteriormente me relatou não estar plenamente ciente da situação, bem como em detrimento da vontade expressa dos presentes, que se posicionaram contrariamente à manobra.

O mais preocupante é que práticas como essa têm sido tratadas com naturalidade, quase como parte de um folclore da vida condominial, como se fossem aceitáveis ou inerentes ao “jeito” de conduzir as relações em condomínio. Essa tolerância, porém, é corrosiva. Ela mina a confiança entre as partes, enfraquece o ecossistema e a autoridade do síndico e transforma o ambiente de convivência em um campo de desconfianças silenciosas. Quando agir pelas costas se torna normal, a ética vira uma formalidade e a boa-fé, uma raridade.

Deveríamos, como sociedade condominial, copiar o modelo de Suits, não a parte teatral das intrigas, mas o valor inegociável da lealdade. Precisamos desenvolver uma intolerância cultural ao ato de agir pelas costas. O síndico, os condôminos, os prestadores e a administradora devem adotar a postura de que toda ação relevante deve ser comunicada, discutida e registrada às claras.

A ética não é apenas um código; é um reflexo da cultura que cultivamos. E a cultura só muda quando deixamos claro o que é aceitável e o que não é. No dia em que o universo condominial tratar o “agir pelas costas” com a mesma repulsa que Suits trata, teremos dado um passo importante rumo a uma sindicatura e um ecossistema condominial mais ético, transparente e respeitado.

Rogério de Freitas é síndico profissional, graduado em Administração de Empresas e pós-graduado em Marketing e Gestão Empresarial, Coach Integral Sistêmico

 

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