A Arte de Perguntar: Uma Ferramenta Poderosa na Gestão Condominial

A Arte de Perguntar: Uma Ferramenta Poderosa na Gestão Condominial

 

Caro colega de sindicatura, 

Se há algo que a prática cotidiana nos ensina é que ser síndico vai muito além da gestão patrimonial. Somos, antes de tudo, mediadores de relações humanas. Nos últimos tempos, passei a adotar uma técnica que tem transformado significativamente minha relação com os condôminos e, principalmente, a maneira como conduzo demandas, especialmente aquelas que envolvem conflitos interpessoais e o cumprimento das regras do Regimento Interno. Trata-se de responder às demandas com... perguntas. Sim, perguntas bem elaboradas, intencionais e estratégicas.

Não é raro que o condômino, por falta de habilidade relacional ou até por comodismo, transfira para o síndico a responsabilidade de resolver conflitos que, muitas vezes, poderiam — e deveriam — ser tratados diretamente entre vizinhos. Questões como perturbação de sossego, infiltrações, desentendimentos sobre o uso de vagas, entre outras, frequentemente chegam até nós na expectativa de que sejamos os protagonistas da solução, enquanto eles se colocam na posição de meros espectadores.

Ao utilizar perguntas, meu objetivo é provocar reflexão e, principalmente, gerar consciência no condômino sobre qual é, de fato, o seu papel na situação que traz. Quem é responsável pelo quê? Até onde vai a responsabilidade do síndico? E qual é a parte que cabe ao próprio condômino na condução do problema? Para isso, lanço mão de questionamentos como: “O senhor já conversou diretamente com seu vizinho sobre isso?”, “De que forma essa situação fere objetivamente o Regimento Interno?”, “O senhor tem registros ou evidências que comprovem essa ocorrência?”, além de perguntas que aprofundam ainda mais a responsabilidade do solicitante, como: “Até onde o senhor está disposto a se expor para tratar desse assunto?” e “Caso essa situação tome proporções judiciais, o quanto o senhor está comprometido a manter o seu posicionamento?”. Esse conjunto de perguntas faz com que o condômino compreenda, com clareza, que há etapas, protocolos e ritos a serem seguidos, e que a atuação do síndico se dá dentro de limites bem definidos, onde cada parte tem sua cota de responsabilidade no processo de resolução do conflito.

Essa abordagem não é apenas uma forma de se proteger de sobrecargas indevidas, mas sobretudo de educar. Quando o condômino percebe que a administração do condomínio não é um balcão de reclamações automáticas, mas sim um espaço de construção coletiva de soluções, ele passa a se responsabilizar mais pelas próprias atitudes, a entender os limites da gestão e a se comprometer com os processos. As perguntas, nesse contexto, funcionam quase como um contrato psicológico: ao respondê-las, o condômino assume a responsabilidade de seguir determinados passos e entende que a intervenção do síndico ocorre dentro de critérios claros e previamente estabelecidos.

Além disso, essa técnica permite que se esclareçam, desde o início, quais são as possibilidades e as impossibilidades da atuação do síndico. Muitas frustrações e desgastes nascem justamente da expectativa equivocada de que o síndico é uma espécie de juiz ou delegado do convívio social. Quando tudo fica devidamente alinhado, o trabalho flui melhor, os conflitos diminuem e as relações dentro do condomínio se tornam mais maduras e colaborativas.

Portanto, meu convite aos colegas é: experimentem transformar as respostas em perguntas. Vocês vão se surpreender com a mudança de postura dos condôminos e, principalmente, com a leveza que essa prática traz para o exercício da sindicatura. Afinal, mais do que resolver problemas, nosso papel é conduzir processos de convivência — e isso começa, muitas vezes, por fazer as perguntas certas.

Rogério de Freitas é graduado em Administração de Empresas, pós-graduado em Marketing e Gestão Empresarial e Síndico Profissional.

 

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