A montanha certa

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Uma pergunta começou a me incomodar, até onde vale a pena crescer? Depois de anos atuando como síndico, percebi um paradoxo da profissão. Quanto melhor fazemos nosso trabalho, maiores tendem a ser as oportunidades e responsabilidades. Mais condomínios significam mais demandas, conflitos e energia.

Para quem vive da sindicatura, aumentar a receita normalmente significa receber mais por condomínio ou administrar mais condomínios. Mas há um limite. Se, para aumentar minha receita, preciso ampliar proporcionalmente minha disponibilidade, carga emocional e desgaste, estou realmente prosperando ou apenas aprendendo a carregar mais peso?

Essa inquietação me levou ao conceito FOFO, FOCO, TOPO, uma forma de compreender os movimentos entre o lugar em que estamos e aquele que desejamos alcançar.

O FOFO representa nosso estado atual. Ele não precisa ser ruim. Podemos estar trabalhando, produzindo e conquistando resultados. A vida está andando. Mas andar não significa seguir na direção certa. Na sindicatura, isso acontece quase sem perceber. Aceitamos mais um condomínio, depois outro. Aumentamos a disponibilidade, respondemos fora de hora e carregamos problemas que nem sempre são nossos. O faturamento cresce, mas o tempo diminui. Podemos crescer profissionalmente enquanto encolhemos em outras dimensões da vida.

Talvez o problema não esteja no desejo de crescer, mas no modelo escolhido. É aí que entra o FOCO. Não significa fazer mais, mas escolher melhor onde colocar energia. Talvez eu não precise de mais condomínios. Talvez precise aumentar o valor percebido, melhorar processos, usar tecnologia, delegar e ampliar minha capacidade de entrega. A pergunta deixa de ser “como consigo mais?” e passa a ser “como aquilo que faço pode produzir mais valor?”.

E então chegamos à montanha. Podemos passar anos escalando uma montanha porque acreditamos que seu topo representa sucesso, faturamento, patrimônio, reconhecimento. Trabalhamos e continuamos subindo. Até chegar lá e descobrir algo desconfortável, conquistamos o topo, mas não gostamos da vida necessária para permanecer nele.

O desafio não é apenas aprender a subir. É escolher a montanha certa. Minha compreensão do TOPO também mudou. Antes, ele poderia ser representado por receita ou patrimônio. Hoje prefiro enxergá-lo de forma mais ampla, uma vida abundante. Uma vida em que crescimento financeiro esteja integrado à saúde, à família, à espiritualidade, ao propósito e aos valores que não queremos negociar. Não significa equilíbrio perfeito. Significa coerência.

E quero mais do que chegar lá. Quero permanecer. É o TOPO PERENE, uma vida abundante e sustentável, na qual o crescimento de uma área não exija a destruição das outras. A própria sindicatura pode nos ensinar isso. Administramos conflitos, recursos, expectativas e prioridades. Enquanto administramos condomínios, também administramos nossas escolhas e a própria vida. Hoje, minha pergunta deixou de ser apenas “como aumentar minha receita?”. Ela ficou maior, “que tipo de vida estou construindo enquanto construo minha carreira?”.

Se eu continuar crescendo assim, onde estarei daqui a cinco ou dez anos? Quero chegar lá? Estou aumentando meu faturamento ou minha capacidade de gerar valor? Podemos nos tornar excelentes escaladores e, tarde demais, descobrir que subimos a montanha errada. Talvez prosperidade não seja chegar mais alto. Talvez seja chegar ao lugar certo sem abandonar aquilo que fazia a subida valer a pena.

Rogério de Freitas é síndico profissional, graduado em Administração de Empresas e pós-graduado em Marketing e Gestão Empresarial, Coach Integral Sistêmico

 

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