O alarme de incêndio tocou no condomínio e revelou uma fragilidade que nenhum equipamento em dia consegue resolver: a falta de preparo. Dos cerca de 20 moradores que estavam no local naquele momento, apenas dois perceberam que o som poderia indicar uma emergência.
Era um alarme falso. Mas o episódio acabou funcionando como um teste inesperado. Alguns moradores ouviram o alerta e imaginaram que fosse um alarme de carro ou algum barulho vindo da rua. Até quem reconheceu a situação cometeu erros: a síndica e outras duas pessoas desceram para verificar o que estava acontecendo, mas deixaram suas famílias dentro do apartamento.
Não houve consequências porque não havia incêndio. Ficou, porém, uma pergunta que poderia ter custado caro em uma ocorrência real: o que aconteceria se aquele alarme tivesse sido o aviso de um incêndio de verdade?
O episódio mostra uma das questões centrais da segurança contra incêndio em condomínios. Extintores, hidrantes, alarmes, sinalização e rotas de fuga são fundamentais, mas não funcionam sozinhos. Em uma emergência, alguém precisa reconhecer o sinal, saber por onde sair, entender o que deve fazer e, principalmente, evitar comportamentos que possam aumentar o risco.
“Às vezes acreditamos que determinadas atitudes são óbvias, mas, quando acontece uma situação real ou próxima disso, percebemos que não são”, relata a síndica Rosilene Roiek, de Balneário Camboriú.

É justamente nesse ponto que entra o fator humano. O Plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndios (PPCI) reúne medidas destinadas a reduzir riscos e permitir a resposta a uma emergência. Mas a existência dos sistemas previstos para a edificação não elimina a necessidade de pessoas preparadas para utilizá-los e seguir os procedimentos de segurança.
A brigada de incêndio é um exemplo de como esse preparo pode fazer diferença. Formada por pessoas capacitadas para atuar na prevenção e na resposta inicial, ela é exigida em determinadas edificações, conforme suas características e ocupação.
Em uma situação recente ocorrida no Shopping Itaguaçu, em São José, foi uma brigadista quem identificou a origem do fogo nos dutos da coifa de um restaurante. Ela utilizou rapidamente os sistemas preventivos disponíveis e conseguiu controlar e extinguir o incêndio.
O caso mostra como uma atuação rápida e treinada pode impedir que um princípio de incêndio evolua e cause consequências mais graves. E essa atuação muitas vezes é silenciosa: quando a prevenção funciona adequadamente, o fogo é controlado ainda no início e, em alguns casos, o Corpo de Bombeiros sequer chega a atuar.
O incêndio não espera o bombeiro chegar
Os primeiros minutos de uma ocorrência são decisivos. É nesse intervalo, antes da chegada do Corpo de Bombeiros, que o incêndio pode permanecer restrito à fase inicial ou evoluir rapidamente, produzindo fumaça, calor e gases tóxicos.
Segundo o major Rafael Giosa Sanino, chefe da Divisão de Engenharia contra Incêndio do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina, a primeira providência é acionar o 193. Ao mesmo tempo, devem ser acionados os sistemas de alarme e iniciado o abandono da edificação. Se for seguro, também pode ser feito o corte das fontes de energia elétrica e gás e o combate inicial ao fogo.
Quando a equipe está treinada, ela funciona como a primeira resposta organizada dentro da edificação até a chegada dos bombeiros. Seus integrantes estão preparados para identificar a emergência, acionar o socorro, verificar o acionamento do alarme, orientar e organizar o abandono, conhecer as rotas de fuga, prestar primeiros socorros dentro de sua capacitação e, se houver condições de segurança, combater o princípio de incêndio com os equipamentos disponíveis.
Isso não significa enfrentar o fogo a qualquer custo. Pelo contrário: o preparo também envolve saber quando não agir. A presença de um extintor, por exemplo, não significa que qualquer pessoa deva tentar controlar um incêndio. O combate só deve ocorrer quando as condições forem seguras, o fogo ainda estiver em sua fase inicial, houver equipamento adequado e uma rota de fuga estiver disponível.
“Em uma emergência, a falta de informação pode gerar desorientação e dificultar o abandono do local atingido. A brigada ajuda justamente a organizar esse processo, orientando os moradores pelas rotas de fuga, evitando comportamentos inadequados e conduzindo as pessoas até os locais seguros e pontos de encontro”, explica.

Também é importante que os integrantes da brigada saibam reconhecer comportamentos que aumentam o risco, com cuidado dobrado para não se utilizar elevadores durante a emergência, não se retornar para buscar objetos pessoais, não se bloquear ou obstruir rotas de fuga nem se manter portas corta-fogo abertas com calços, pois isso permite que fumaça e gases atinjam as escadas de emergência.
A atuação da brigada também pode facilitar o trabalho dos bombeiros quando eles chegam. Os integrantes podem fornecer informações importantes sobre a emergência, como a localização do foco, a existência de vítimas ou pessoas que ainda possam estar na edificação e os riscos existentes. Também podem apresentar as plantas de risco da edificação, auxiliar na liberação do acesso das viaturas e manter a área isolada, permitindo que a guarnição concentre seus esforços no atendimento da ocorrência.
Treinar é mais do que aprender a usar um extintor
Para que essa resposta eficaz exista quando necessária, não basta formar uma equipe e encerrar o assunto. A preparação precisa acompanhar a rotina do condomínio.
Embora a brigada de incêndio não seja obrigatória em edifícios residenciais, manter medidas de orientação e capacitação das pessoas que vivem ou trabalham no condomínio é fundamental. Para Alessandra Eicke de Morais, sócia-proprietária da Ales Consultoria e Assessoria, empresa voltada aos assuntos do corpo de bombeiros para edificações, o treinamento não deve ficar restrito às pessoas que exercem funções específicas: os demais moradores e funcionários também precisam saber reconhecer uma emergência e entender como agir.

Segundo ela, a preparação passa por treinamento prático e conectado à realidade do condomínio. Não basta saber, em teoria, que existe um extintor no corredor: é preciso reconhecer qual equipamento utilizar, saber operá-lo e manter a calma diante da emergência, sem agir por impulso.
A preparação também precisa acompanhar as mudanças na própria equipe. A saída, da brigada, de uma pessoa treinada, por exemplo, pode reduzir a capacidade de resposta se não houver reposição e atualização do grupo. Por isso, a capacitação periódica ajuda a manter o conhecimento necessário para uma resposta adequada quando uma emergência acontece.
Quando o alarme toca, não há tempo para aprender
O alarme falso que tocou no condomínio de Rosilene revelou uma dificuldade que poderia passar despercebida: fazer com que os moradores saibam da existência de um alarme ou de uma rota de fuga não é suficiente. Eles precisam reconhecer o som, entender o que ele significa e saber qual procedimento adotar imediatamente.
“Naquele dia percebemos que ainda havia muito a melhorar. Os procedimentos que seriam necessários diante de uma situação real sequer foram adotados. Essa foi justamente a principal lição: treinamento não pode ficar apenas na teoria”, diz a síndica.
Depois do ocorrido, os preparativos passaram a ser reforçados. Além dos canais de comunicação e das sinalizações no condomínio, Rosilene entendeu a necessidade de retomar as orientações periodicamente e, sempre que possível, trabalhá-las de forma prática. A ideia é que os moradores não precisem aprender o que fazer justamente quando uma emergência acontecer.
Os treinamentos técnicos, antes direcionados às pessoas que precisam estar preparadas para determinadas funções, também se estenderam a outros moradores. Nem todos precisam ser brigadistas, mas todos precisam conhecer os procedimentos básicos de segurança e saber qual deve ser sua primeira atitude diante de uma emergência.
“Todos, de funcionários a moradores, precisam conhecer os procedimentos básicos e entender que um alarme deve sempre ser levado a sério”, reforça.





