O crescimento de veículos eletrificados no Brasil, que deu um salto de 89% em 2024 ao registrar a marca de 177 mil veículos vendidos, acabou mudando o cenário da mobilidade urbana no país. Fato que vem trazendo, principalmente, novos desafios para síndicos, gestores e profissionais da área de manutenção e segurança predial.
Pensando nisso, o Jornal dos Condomínios promoveu encontro que reuniu representantes da Celesc, Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina, além de líderes do mercado do setor. Cada um na sua área de atuação, apresentou soluções para resolver as questões que acompanham a entrada dos veículos eletrificados nos empreendimentos. A começar pela instalação adequada de estações de recargas e normativas que devem ser seguidas para garantir a segurança dos prédios e eficiência dos equipamentos.
Realizado dia 14 de agosto no auditório da AEMFLO e CDL de São José, o Workshop sobre Eletromobilidade e Segurança das Edificações serviu para atualizar os participantes ao apontar as melhores práticas para adaptar edifícios a essa nova realidade. “O mundo é elétrico”, disparou o especialista em Controle de Emergência e Coordenador da Comissão de Estudos de Segurança contra Incêndios da ABNT, Marcelo Valle, ao lembrar que não estamos apenas falando de carros eletrificados, mas sim desde um simples patinete ou motocicleta até ônibus, máquinas pesadas e caminhões.
E foi diante de uma plateia formada por dirigentes da Grande Florianópolis e de diversas cidades do estado, como Joinville, Blumenau, Tubarão, Balneário Camboriú e Lages, que Marcelo Valle abriu o evento abordando os riscos e a investigação de ocorrências com baterias de lítio. Segundo ele, há muitos mitos em torno do assunto e um deles é quanto à durabilidade de uma bateria, o que tem gerado comentários mundo afora de que veículos eletrificados vão acabar virando sucata.

“As baterias evoluíram bastante e, hoje, estão mais seguras e com garantia que chega de 8 a 10 anos. Mas já têm estudos com baterias de maior autonomia e rápidas, a exemplo das utilizadas em celulares. Quanto à segurança, pode-se dizer que um carro eletrificado não é mais perigoso quanto o movido à combustão, pois os dois se utilizam cada vez mais de material plástico”, esclarece Marcelo.
Para o especialista, a tendência do futuro - quando se fala em sustentabilidade - é que os veículos eletrificados dependam o mínimo possível de uma estação de recarga. “A propensão é que se utilizem da própria energia, seja por sistema fotovoltaico, seja por sistema de regeneração da própria bateria, seja por hidrogênio ou ainda abastecidos com etanol, um combustível menos poluente. Até porque a bateria de lítio tem uma extração muito degradante. São soluções que estão sendo pensadas para tornar os veículos eletrificados totalmente sustentáveis”.
Normas e Regulamentações
A programação também incluiu um painel técnico que contou com a presença dos engenheiros eletricistas Daniel Mendes Ayoub, Deyson Sidney Meneses Vital e Ayslan de Souza Ferreira, da Celesc, e com a Major Polliana Müller Giacomin, do Corpo de Bombeiros de Santa Catarina. Eles abordaram a importância do cumprimento de normas e regulamentações para garantir a proteção de todos e as tendências de PPCI (Plano de Prevenção e Proteção Contra Incêndio).

Daniel Mendes, da Celesc, lembrou que a Companhia responde somente até a medição elétrica da edificação e que, a partir daí, a competência é dos condomínios e moradores. Entretanto, destacou a importância de prever instalação dos carregadores elétricos veiculares para os empreendimentos novos. "A sugestão é sempre contratar um profissional especializado e seguir as Normas da Celesc D", adianta.
De acordo com Daniel, para as edificações existentes, há a possibilidade de solicitar uma unidade consumidora adicional para a alimentação dos carregadores veiculares. "É importante que, com o trabalho de um profissional habilitado, seja realizado um levantamento da demanda elétrica da edificação, verificando quantos carregadores veiculares é possível instalar nos prédios mais antigos e, com isso, elaborar um projeto elétrico de adequação junto à Celesc", acrescenta.
A Major Polliana destacou que a segurança contra incêndio deve ser discutida de forma ampla, não apenas pelo surgimento dos veículos eletrificados, mas também considerando os sistemas preventivos já existentes nos prédios, assegurando que estejam devidamente instalados e em perfeito funcionamento.
Destacou ainda que os sistemas preventivos já existentes nas edificações garantem um nível mínimo de segurança, especialmente no que se refere às saídas de emergência, iluminação de emergência, sinalização para abandono do local, detecção e alarme de incêndio, sistema hidráulico preventivo e instalações elétricas de baixa tensão. Ela reforçou que a tendência, conforme os resultados apresentados pelo Comitê Especial de Veículos Elétricos, é que novos sistemas preventivos sejam incorporados às garagens, a fim de garantir maior proteção contra incêndio, diante da evolução tecnológica e do surgimento de novos materiais e elementos.
“O evento foi um marco para a atualização profissional e atraiu participantes de várias cidades catarinenses. Ofereceu ainda um valioso espaço para networking durante o coquetel, permitindo, assim, a troca de experiências entre os presentes”, aponta a diretora do Jornal dos Condomínios, Ângela Dal Molin, que contou com a coordenação e produção do evento de Luísa Cândido Lopes.
O síndico e administrador da HB Condomínios de Brusque, Sandro Bocardi, foi um dos que participaram do Evento de Eletromobilidade e Segurança das Edificações. Há 12 anos no mercado condominial, Sandro e um grupo de colegas da área estiveram presentes para tirar dúvidas e ampliar o seu conhecimento em torno do assunto.
”Gostaria de parabenizar o Jornal dos Condomínios pela iniciativa de trazer esse tema. Afinal, essa revolução não é apenas sobre trocar o combustível por energia, mas sobre transformar a forma como nos deslocamos, repensando sustentabilidade, segurança e eficiência”, elogia.
Soluções de mercado
Para complementar o conteúdo, o workshop promoveu uma mesa-redonda e reuniu líderes do mercado para apresentar soluções ao setor. Entre os participantes, o destaque ficou por conta de Dione Borges, engenheira civil e especialista em engenharia de incêndio representando a SC Fire; Hélio Ferraz, engenheiro eletricista e especialista em recarga de veículos elétricos representando a EnergySpot; Luís Fontes, representando a Duplique Santa Catarina, e Gustavo Camacho, advogado condominialista e presidente da Associação de Síndicos de Santa Catarina - ASDESC.

Conduzido por Rogério Freitas, colunista do Jornal dos Condomínios, síndico profissional e palestrante, o painel fez a seguinte pergunta: Com relação à instalação de carregador de carro eletrificado, com o que os síndicos vão ter que se preocupar em se tratando de equipamentos, conhecimento da indústria, leis, captação de recursos, prevenção contra incêndios?
Hélio Ferraz: Comece contratando uma empresa efetivamente especializada no assunto, porque ART não é sinônimo de certeza. Alguém que faça um estudo de demanda, que faça um projeto e submeta à assembleia. Uma vez aprovado, que seja executado conforme indica o projeto. Mais uma vez recomendo privilegiar a carga lenta: não há necessidade de instalar carregador de alta potência em condomínios residenciais. Não há necessidade em carregar um carro em duas horas se ele vai dormir a noite toda na vaga. Então, para que colocar um carregador de alta potência se pode colocar vários de menor potência. E ainda sugiro: não puxe energia do relógio do morador, puxe energia da área comum.
Luís Fontes: Da nossa parte, citamos a questão financeira. Há a vontade de realizar melhorias no condomínio, mas precisa de recursos para isso. Então é essencial buscar uma garantidora de receita para assegurar os recursos. A minha principal orientação é: não examinar apenas propostas, mas analisar e comparar contratos. Fazer um filtro nas propostas antes de levar para a assembleia e dessa forma evitar dor de cabeça e prejuízos futuros. Façam um planejamento financeiro completo, levem a pauta para a assembleia e, o mais importante, garantam que o quórum de aprovação seja seguido. Assim, seguindo os trâmites legais, a garantidora terá segurança para reaver os valores que antecipou ao condomínio para a obra ser executada."
Gustavo Camacho: Com relação às leis, análise do quorum, se será especial ou maioria simples é fundamental, e quem vai nos dar essas diretrizes será o projeto elétrico contratado. A elaboração de um contrato de prestação de serviços adequado com toda a segurança necessária, com a Due Diligence realizada no fornecedor e que ele tenha a capacidade técnica para execução dessa atividade. Que seja montado um plano, um memorial de reforma elétrica para ser acondicionado junto à administração do condomínio para as futuras gerações daquele empreendimento, para quando for realizada a inspeção da edificação.
Dione Borges: Como responsável técnica quero responder a pergunta fazendo outra pergunta. Quanto tempo ainda vamos aguardar por uma norma que nos traga o mínimo de certeza para que a gente possa responder ao síndico que nos procurar com validação e segurança? Sugiro, hoje, aguardarmos o lançamento da norma para que a gente possa trabalhar com dados e informações corretas. As edificações antigas estão nos deixando temerosos como, por exemplo, se a norma vier a exigir a instalação de sprinkler, pois não estão preparadas por conta das reservas técnicas de caixas de água.
Nova diretriz nacional
Foi divulgada no dia 26 de agosto a Diretriz Nacional sobre Ocupações Destinadas a Garagens e Sistemas de Alimentação de Veículos Elétricos (SAVE).
O documento, elaborado pelo Conselho Nacional de Comandantes-Gerais dos Corpos de Bombeiros Militares (CNCGBM | LIGABOM), estabelece regras claras para a instalação de pontos de recarga em prédios, condomínios e estacionamentos e vai servir de base para orientar os Corpos de Bombeiros Militares de todas as unidades federativas.
A nova diretriz nacional entrará em vigor em 180 dias após a publicação, ou seja, no final de fevereiro de 2026. Para edifícios existentes, os prazos de adaptação serão definidos por cada estado, mas as exigências elétricas de segurança passam a valer imediatamente depois do período inicial.
A medida representa um passo importante na criação de parâmetros nacionais de segurança, mas também abre espaço para debate sobre o equilíbrio entre prevenção e viabilidade da infraestrutura de recarga no país. Segundo o LIGABOM, a medida se justifica pelo aumento da frota de veículos eletrificados e híbridos no país, aliado a novos riscos associados às baterias de íon-lítio e ao uso de materiais mais inflamáveis nos carros modernos.
Confira os principais tópicos do documento:
Quais modos de recarga serão permitidos?
Conforme a norma, apenas os modos 3 e 4 de recarga de carros elétricos, definidos pela NBR IEC 61851-1, estarão autorizados em garagens e estacionamentos.
- Modo 3 (Wallbox): Usado em residências, condomínios e empresas, exige instalação dedicada com proteção elétrica, cabos certificados e sistema de desligamento automático.
- Modo 4 (carregadores rápidos DC): Equipamentos de alta potência, geralmente encontrados em shoppings, rodovias e estacionamentos corporativos. Trabalham com corrente contínua e requerem sistemas robustos de proteção contra incêndios.
Outros tipos de carregamento, como o Modo 1 (tomadas domésticas comuns) e o Modo 2 (carregadores portáteis conectados a tomadas convencionais), não serão permitidos em garagens, pois não oferecem a segurança necessária para ambientes fechados.
Principais exigências para instalação
Para garantir a segurança dos moradores, veículos e estruturas, a norma nacional dos Bombeiros define uma série de requisitos para instalação de pontos de recarga de carros elétricos no Brasil:
• Ponto de desligamento de emergência: todas as estações devem ter um botão manual a até 5 m de distância.
• Quadro elétrico dedicado: o sistema precisa de um disjuntor exclusivo para cada carregador.
• Sinalização obrigatória: identificação clara dos pontos de recarga e de desligamento.
• Distanciamento mínimo: em garagens com apenas uma rota de saída, os carregadores devem ficar a pelo menos 5 m das áreas de passagem.
• Instalação elétrica conforme normas ABNT (NBR 5410, NBR 17019 e NBR IEC 61851-1).
Essas exigências também se aplicam a residências unifamiliares, ainda que nesse caso não haja obrigatoriedade de sprinklers (chuveiros automáticos) ou sistemas de detecção.
Regras para novas construções
Em edifícios novos, a norma exigirá um projeto técnico específico, incluindo:
• Sistemas automáticos de detecção e combate a incêndio;
• Chuveiros automáticos com resposta rápida;
• Exaustão mecânica para remover gases em caso de incêndio;
• Estruturas com resistência mínima ao fogo de 120 minutos.
O que muda para edifícios já existentes?
Condomínios antigos que desejarem instalar pontos de recarga precisarão se adequar às regras, com foco na instalação de sistemas de detecção de incêndio; proteção hidráulica conectada ao sistema de hidrantes, além de gerenciamento de risco com laudo técnico do responsável pela instalação.
Garagens externas terão regras mais brandas, com foco em proteção contra intempéries e avaliação técnica de riscos, sem obrigatoriedade de sprinklers.
Para esclarecer os pontos que ainda geram muitas dúvidas sobre o risco de incêndios em baterias, o especialista Marcelo Valle desmistificou cinco crenças populares sobre o assunto:
1. "A combustão é espontânea"
Segundo Valle, a ideia de que veículos elétricos pegam fogo do nada é um mito. "Não existe combustão espontânea. O que acontece é um processo de fuga térmica que é facilmente perceptível", explica. Esse processo, quando ocorre, emite sinais que permitem uma intervenção rápida, como por exemplo: odor de solventes orgânicos voláteis (similar a cetona e éter), estalos (rompimento do invólucro) e assobios e chiados (escape de gases), fumaça densa e pesada de cores branca e preta em rápida expansão, chamas direcionais intermitentes (jet-fire), entre outros.
2. "Há risco de choque elétrico durante o incêndio"
O especialista é categórico: o perigo de choque elétrico durante um incêndio em veículos elétricos não existe, salvo durante o carregamento. "O único momento de risco é durante o carregamento, quando o carro está conectado à rede elétrica. Por isso, a desenergização é o passo essencial nesse processo", afirma.
3. "Extintores Classe D são a melhor opção"
Um dos maiores equívocos, de acordo com Valle, é a recomendação de extintores de Classe D para baterias de íon de lítio. "Não se deve usar extintores de Classe D. O incêndio em baterias não é um incêndio de metal pirofórico, mas sim de gases. É uma diferença importante", ressalta.
4. "O fogo atinge temperaturas altíssimas"
Valle desmente a crença de que incêndios em baterias queimam em temperaturas muito superiores às de veículos a combustão. "As temperaturas são bastante medianas, comparáveis às de veículos comuns. Os picos de temperatura só ocorrem se houver outros materiais combustíveis no ambiente que alimentem o fogo", explica.
5. "Incêndios em veículos elétricos provocam colapsos estruturais"
Para o especialista, o risco de colapso estrutural não está no veículo elétrico em si, mas na falta de preparo das edificações. "O veículo elétrico não causa colapso sozinho. O problema é quando um conjunto de veículos, sejam eles elétricos ou à combustão, pega fogo ao mesmo tempo em uma estrutura que não foi projetada para suportar essa carga de calor", conclui.






