Criminosos modernos exploram falhas humanas e ameaçam a segurança dos condomínios

Especialistas explicam como funciona a mente do invasor e quais os pontos mais negligenciados
Invasores utilizam técnicas de engenharia social para driblar sistemas de controle e acessar áreas restritas sem levantar suspeitas Invasores utilizam técnicas de engenharia social para driblar sistemas de controle e acessar áreas restritas sem levantar suspeitas

Por muito tempo, a imagem de uma invasão a condomínio esteve associada a muros escalados, portões arrombados e ações violentas. Hoje, porém, a realidade é outra. Respaldada por especialistas e levantamentos de segurança, análises da área apontam que cerca de 90% das invasões a edifícios ocorrem pela porta principal.

Utilizando técnicas de engenharia social, invasores aproveitam-se da confiança, da distração e da rotina de moradores, funcionários e prestadores de serviço para driblar sistemas de controle e acessar áreas restritas sem levantar suspeitas.

O avanço da tecnologia trouxe ferramentas cada vez mais sofisticadas de monitoramento e controle de acesso. No entanto, autoridades alertam que câmeras, biometria e portarias remotas, por si só, não garantem proteção. As principais vulnerabilidades continuam sendo comportamentais. Um portão aberto para um desconhecido, uma informação compartilhada sem cuidado ou o descumprimento de protocolos básicos podem ser suficientes para comprometer toda a estrutura de segurança.

Nesse cenário, a pergunta que síndicos e administradores precisam fazer não é apenas se o condomínio está equipado, mas se está preparado. Afinal, o criminoso moderno não busca necessariamente o empreendimento mais luxuoso ou tecnológico: ele procura o mais vulnerável. E identificar essas brechas, muitas vezes invisíveis no dia a dia, tornou-se um dos maiores desafios da gestão condominial contemporânea.

Empreendimentos vulneráveis

Segundo o especialista em segurança condominial Leandro Santos, houve uma mudança significativa na forma como os criminosos atuam. Se antes a estratégia era superar barreiras físicas, hoje o objetivo é explorar vulnerabilidades humanas. "O criminoso moderno sabe que invadir sistemas eletrônicos ou romper estruturas físicas é caro, arriscado e complexo. Manipular pessoas é muito mais fácil", afirma.

Leandro Santos
Leandro Santos relata que o objetivo do criminoso moderno é explorar vulnerabilidades humanas

Em seus trabalhos de auditoria e testes operacionais realizados em condomínios, Santos observa que as invasões bem-sucedidas quase sempre estão associadas à quebra de protocolos, à confiança excessiva ou à falta de treinamento dos envolvidos.

Para ele, a vulnerabilidade atual dos condomínios está apoiada em cinco pilares:

i) exploração do fator humano;

ii) excesso de confiança na tecnologia;

iii) falhas nos processos internos;

iv) deficiência na gestão de terceiros; e

v) ausência de auditorias periódicas.

"O condomínio vulnerável é aquele que acredita estar seguro apenas porque nunca sofreu uma invasão. Com o tempo, moradores passam tags para terceiros, funcionários relaxam nos procedimentos e a segurança vai se deteriorando silenciosamente”, explica Santos.

Outro problema recorrente é a pressão sofrida por porteiros e controladores de acesso. Ambientes em que moradores reclamam constantemente da aplicação dos protocolos acabam criando profissionais inseguros, que cedem com mais facilidade diante de situações de pressão.

A engenharia social e os novos personagens do crime

A figura do criminoso também mudou. Em vez de indivíduos com aparência suspeita, os invasores frequentemente se apresentam como pessoas perfeitamente integradas ao contexto do condomínio. Entre os perfis mais utilizados estão falsos entregadores, técnicos de concessionárias, arquitetos, corretores de imóveis, visitantes ocasionais e até moradores recém-chegados.

Segundo Santos, uma estratégia cada vez mais comum é a construção de narrativas extremamente detalhadas. Os criminosos pesquisam previamente informações sobre moradores, obras em andamento, unidades à venda e rotinas do condomínio para criar histórias convincentes.

"Quando alguém chega dizendo que veio fazer um reparo no apartamento do senhor Carlos ou que está acompanhado de um cliente interessado em uma unidade anunciada, a tendência natural é acreditar. É justamente nessa confiança que eles atuam”, explica o especialista.

Outra modalidade crescente é a exploração da empatia. Pessoas fingem passar mal, alegam ter sido vítimas de um assalto ou inventam emergências médicas para provocar uma quebra dos protocolos de segurança.

O efeito carona ainda é o grande vilão

Entre todas as vulnerabilidades comportamentais, uma permanece liderando as estatísticas de ocorrências: o chamado efeito carona. A prática ocorre quando um morador permite, consciente ou inconscientemente, que outra pessoa aproveite a abertura do portão ou da porta para ingressar no condomínio sem qualquer validação.

A síndica Kelly Dencker, de Joinville, afirma que essa é uma das maiores dificuldades enfrentadas pela gestão. "Eu vejo isso acontecer praticamente toda semana. Já compartilhei vídeos educativos, alertas e notícias sobre ocorrências na região para conscientizar os moradores, mas ainda é um comportamento muito presente”, pontua.

Síndica Kelly
Kelly aponta que o segurar a porta para um desconhecido por educação, o chamado “efeito carona”, compromete a segurança coletiva do condomínio.

Segundo ela, muitos condôminos enxergam o ato de segurar a porta para alguém como um gesto de educação, sem perceber o impacto que isso pode ter sobre a segurança coletiva.

Santos concorda. Para ele, o efeito carona é atualmente o “calcanhar de Aquiles” dos condomínios. "O espaço pode ter reconhecimento facial, biometria e clausuras (ou eclusas). Basta uma pessoa segurar a porta por gentileza para toda essa estrutura perder a eficácia”, destaca. O especialista defende que o combate ao problema passa pela combinação entre tecnologia, engenharia física e a necessidade de educação permanente dos moradores.

Só a tecnologia não faz milagres

O diretor de relacionamento da Porter Group, Odirley Felício da Rocha, reforça que o mercado tem evoluído rapidamente em soluções de controle de acesso, mas alerta que um erro comum é acreditar que a tecnologia resolverá sozinha os problemas de segurança. "Não existe tecnologia sem processos. A tecnologia é uma ferramenta extremamente importante, mas ela depende do comportamento das pessoas”, afirma.

Segundo ele, ainda existem milhares de condomínios utilizando sistemas vulneráveis, como controles remotos clonáveis, tags simples de proximidade e teclados de acesso protegidos por senhas previsíveis. Existem equipamentos facilmente encontrados na internet capazes de clonar controles remotos e credenciais de acesso. Muitas vezes o criminoso sequer precisa se aproximar da vítima para capturar esses sinais.

ODIRLEY ROCHA
Odriley reforça que o melhor equipamento do mundo não substitui moradores conscientes, equipes treinadas e processos bem executados

Odirley explica que tecnologias mais modernas, como reconhecimento facial, oferecem níveis superiores de segurança, mas somente quando acompanhadas por procedimentos confiáveis. Para ele, um dos caminhos mais promissores é o fortalecimento do monitoramento perimetral, com uso de inteligência artificial para identificar movimentações suspeitas antes de se sofrer uma invasão.

Além disso, Santos explica que muitos operadores acabam desenvolvendo hábitos perigosos em meio à rotina, como ignorar alertas, liberar acesso de entrada manualmente com frequência, exceder a confiança na própria percepção, entre outras situações comuns.

Um fator crítico é o chamado viés de aparência. "O sistema trata todos os dados de forma objetiva. Já o ser humano é influenciado por roupas, postura, tom de voz e status social. Um criminoso bem-vestido costuma despertar menos desconfiança do que deveria”, alerta. Segundo ele, a engenharia social explora justamente essas questões psicológicas.

Segurança também é uma questão jurídica

Quando as falhas de segurança resultam em prejuízos, a discussão deixa de ser apenas operacional e passa a ter reflexos jurídicos. A advogada Gleydsa Wagner explica que síndicos e condomínios podem ser responsabilizados quando houver omissão ou negligência na gestão dos riscos.

Segundo ela, o condomínio responde pelos atos de seus funcionários e pela qualidade dos serviços oferecidos aos moradores. Quando falhas previsíveis são ignoradas, a responsabilidade civil pode surgir e, em determinadas situações, inclusive, o dever pode atingir diretamente o patrimônio pessoal do síndico.

Advogada Gleydsa
Gleydsa destaca que o registro documental de riscos comprova a diligência do síndico e fortalece sua defesa em eventuais disputas judiciais

"Quando o gestor conhece um problema recorrente, não comunica os moradores e não toma providências, ele deixa de compartilhar a decisão com a coletividade e assume individualmente o risco daquela omissão”, explica a advogada.

A especialista destaca que uma das maiores proteções para a gestão está na documentação. Levar vulnerabilidades para assembleias, registrar riscos em atas e formalizar recomendações cria um histórico que demonstra a diligência do síndico e fortalece sua defesa em eventuais disputas judiciais.

Outro aspecto frequentemente ignorado é a responsabilidade dos próprios moradores. Emprestar tags de acesso, compartilhar senhas, permitir a entrada de desconhecidos ou descumprir protocolos não são apenas atitudes inconvenientes, podem gerar advertências, multas e até responsabilização civil.

Segundo Gleydsa, a legislação e as normas internas dos condomínios permitem a aplicação de sanções quando a conduta de um morador coloca em risco a coletividade. "A segurança é um dever compartilhado. Quem compromete deliberadamente os mecanismos de controle de acesso pode responder pelos prejuízos causados."

Para a síndica Kelly Dencker, essa conscientização ainda é o principal desafio dos gestores. "Não adianta ter a melhor estrutura tecnológica se as pessoas não entenderem que segurança é um compromisso coletivo”, avalia.

O futuro será tecnológico, e continuará sendo humano

Drones de monitoramento, inteligência artificial, reconhecimento facial, sensores inteligentes, automação residencial e integração de sistemas já fazem parte da realidade de muitos empreendimentos e devem se tornar cada vez mais presentes nos próximos anos.

No entanto, apesar da evolução tecnológica, os especialistas concordam em um ponto: a segurança continuará dependendo das pessoas. "A tecnologia é tendência e não tem volta", resume Odirley. "Mas a gestão de pessoas será cada vez mais importante. O melhor equipamento do mundo não substitui moradores conscientes, equipes treinadas e processos bem executados”, afirma o especialista.

Em um cenário em que os criminosos exploram emoções, hábitos e distrações, a principal defesa dos condomínios talvez seja justamente a mais antiga de todas: a atenção. Porque, na prática, a invasão mais perigosa não é aquela que derruba muros, mas a que, muitas vezes, convence alguém a abrir a porta.

As soluções mais eficientes dividem-se em quatro eixos operacionais:

• No acesso de veículos (clausura real com laço indutivo duplo e intertravamento): o sistema deve ser automatizado via hardware, utilizando laços indutivos (sensores de massa metálica no chão). O portão 2 só se abre após o fechamento completo do portão 1 e a validação da credencial (por exemplo, biometria facial). Associado a isso, o uso de motores de alta velocidade reduz drasticamente a janela de oportunidade do invasor.

• No acesso de pedestres (barreiras anticarona e sensores): implementação de catracas ou torniquetes de altura total em áreas de serviço e alta circulação, que travam fisicamente após a passagem de uma única pessoa. Para clausuras sociais, a tecnologia de intertravamento inteligente com barreiras físicas modernas entre os portões, desescalam antecipadamente a tentativa de intrusão por efeito psicológico, antes mesmo da tentativa. Se duas pessoas entrarem com apenas uma validação, o sistema trava o segundo portão e alerta o operador.

• Alarme de obstrução e suporte operacional: criminosos costumam colocar o pé ou objetos na linha da fotocélula para impedir o fechamento físico e manter o fluxo livre. O sistema deve ser configurado para que, se a fotocélula for interrompida por mais de 5 segundos, um alarme sonoro local de alta potência seja disparado na clausura.

• Engajamento e consciência: "Segurança não é falta de educação": é fundamental desconstruir o viés de que não segurar a porta para o vizinho é grosseria. O condomínio deve promover campanhas educativas permanentes. Placas de sinalização direta devem ser fixadas nas clausuras para reforçar o hábito coletivo.

 

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