Empatia para além da sindicatura

O papel do síndico, muitas vezes, extrapola a preocupação apenas com administração e estrutura, podendo ser fundamental em situações sensíveis, que necessitam não do profissional, mas do ser acolhedor
Empatia para além da sindicatura

 

O síndico, muitas vezes visto com maus olhos por cobrar posturas dos moradores, ou como um mero "resolvedor de problemas", é, na verdade, muito mais do que isso.

Ele também é pai, mãe, filho, amigo — um ser humano empático, que pode, em situações de emergência, extrapolar seu papel profissional e se tornar um verdadeiro braço amigo. Não são raros os casos em que síndicos foram fundamentais para oferecer ajuda em momentos delicados, que exigem cuidado, proteção e, não raras vezes, até mesmo envolvem risco de vida.

Marciana
Marciana acredita que o papel do síndico, mais do que cuidar da estrutura, é cuidar das pessoas

Um desses episódios ocorreu com Marciana Aguirres Schmengler, síndica profissional de Brusque, que atualmente administra seis condomínios na cidade. No ano passado, ela foi acionada de forma emergencial por um casal de idosos. O marido estava enfrentando uma grave emergência de saúde e, diante da dificuldade de contato com os filhos — não por negligência, mas por mero acaso —, a esposa recorreu a Marciana, buscando ajuda imediata.

“Em 24 de fevereiro de 2024, eu estava na minha casa, pois não resido nos condomínios que administro, quando a moradora me ligou por volta de 23h50 pedindo socorro. Ela disse que o marido apresentava um sangramento profundo no nariz. Estava nervosa, não conseguia contato com o SAMU e viu em mim alguém que poderia ajudar. Foi quando me mandou mensagem pedindo socorro”, relata Marciana.

Esta já estava deitada, pronta para dormir, mas não hesitou: trocou de roupa rapidamente e dirigiu-se ao condomínio.

“A primeira coisa que perguntei foi se gostariam que eu chamasse o SAMU, mas o senhor pediu que os levasse ao hospital. Coloquei o casal no carro e dirigi o mais rápido que pude até a emergência. Estava com medo, claro, pois o caso parecia sério. No trajeto, o sangramento piorou significativamente, atingindo também a boca. Meu instinto foi seguir com a maior velocidade possível, mas de forma segura”, conta.

Ao chegar ao hospital, o senhor foi prontamente atendido, mas a esposa, bastante abalada, permaneceu apreensiva. Marciana não a deixou sozinha e ficou ao seu lado até a chegada dos filhos, todos muito preocupados com o pai.

“Por volta da 1h, os filhos entraram em contato. A senhora estava com o marido lá dentro, então atendi o telefone, expliquei a situação e aguardei a chegada deles. Disse que não sairia dali até saber como o casal estava. Quando chegaram, os recebi e eles permaneceram com o pai. Levei a senhora de volta para casa, pois estava mais tranquila, embora muito cansada. Só então retornei à minha casa. Já tínhamos um vínculo de carinho e respeito, mas, naquele momento, criou-se um laço de amor. Sempre fui tratada como filha por eles e, ao acolhê-los naquele momento de desespero, também me senti assim.”

Para Marciana, o episódio reforçou a noção de que o papel do síndico vai além de cuidar da estrutura — é, também, cuidar das pessoas. “Quando ela sentiu necessidade, me chamou, e eu não medi esforços. Nunca vou medir. Se eu puder ajudar, sempre ajudarei. Tento fazer da melhor forma possível, e é muito gratificante ser reconhecida por isso. Eu amo ser síndica. Essa é uma história que vou levar para sempre.”

O administrador e síndico profissional Ederson dos Santos Maciel passou por uma emergência que assusta qualquer síndico. No dia 1º de janeiro de 2023, em um condomínio no bairro João Paulo, em Florianópolis, ele foi acionado por volta das 5h da manhã por um morador, que relatou um incêndio dentro de uma das unidades do condomínio. Logo, Ederson, que era síndico daquele condomínio à época, pediu que os bombeiros fossem contatados enquanto ele se deslocava até o local.

Sindico Ederson Materia Empatia
Ederson diz que ficou muito feliz de ter conseguido salvar uma vida durante um incêndio

“Peguei a moto por ser mais rápida e corri para lá. Nem vesti a roupa direito, tamanho foi o desespero. Quando fui chegando ao bairro, já avistei a fumaça. O prédio estava sob minha gestão desde 2022, por isso sabia que estava regularizado, inclusive em questões que envolviam as autorizações do Corpo de Bombeiros, então estava tudo certo em relação a extintores, alvará e tudo mais. Quando cheguei, dois moradores vizinhos a essa unidade em chamas tentavam tirar lá de dentro um senhor que possuía deficiência visual e estava sozinho naquele momento, pois seus familiares estavam trabalhando. Quando ele sentiu que o ambiente estava quente e com muita fumaça, o quarto já estava tomado pelas chamas. Atordoado, não encontrava seus óculos e nem a chave do apartamento para escapar da situação”.

Ederson conta que, nesse momento, apelou à força para, junto aos outros dois moradores, romper a porta. Eles, então, conseguiram retirar o morador e um dos cachorros que viviam com este. Nesse momento, a família chegou, dizendo que havia um outro cachorro lá, mas, infelizmente, não foi possível encontrá-lo.

“Neste episódio pude sentir na prática a importância de estar com tudo em dia em relação à segurança. Na época, os moradores não aceitaram muito bem o fato de não termos encontrado o outro cachorro, mas a escolha não deixava dúvida de que o senhor era a prioridade a ser salva naquele momento, decisão corroborada pelos bombeiros que atenderam a ocorrência. Fico feliz por ter salvo uma vida e ter parceiros como os moradores Sr. Jaci e sua esposa, que me ajudaram e deram todo o apoio até o final desse dia e ajudaram a retirar aquele senhor das chamas”, finaliza Ederson.

Após o susto, houve a constatação da motivação do incidente: houve curto-circuito dentro da unidade por conta da ligação de muitos eletrônicos na mesma fonte, justamente no quarto do morador.

Letícia
Letícia acredita no propósito da sindicatura e reforça que o síndico precisa entender as dores, desafios e expectativas do outro

Empatia e senso de urgência como motivadores no auxílio

Em Balneário Camboriú, a síndica profissional Letícia Duarte viveu uma situação semelhante. Uma moradora de 79 anos, após sentir uma tontura, deitou-se no chão e não conseguiu mais se levantar. Com muito esforço, conseguiu ligar para a nora, que mora em São Paulo. A orientação foi acionar um chaveiro para abrir a porta. Enquanto Letícia se deslocava até o condomínio, pediu ajuda a um morador para que o chaveiro pudesse acessar o apartamento.

Ao chegar, Letícia encontrou a senhora bastante debilitada. Era necessário agir. A família, que acompanhava tudo por telefone, solicitou que ela fosse encaminhada a um hospital particular, pois possuía plano de saúde. Para isso, seria preciso contratar uma ambulância. Letícia organizou o trâmite, acompanhou o atendimento pré-hospitalar e foi com a idosa até o hospital. Permaneceu lá até a conclusão do diagnóstico e da medicação. Saiu por volta de 1h30.

A senhora, com fome após o procedimento médico, pediu algo para comer. Mesmo com o horário avançado, Letícia encontrou um local e conseguiu ajudá-la. Pouco depois, o sobrinho da paciente chegou para acompanhá-la.

Dias depois, Letícia foi surpreendida com um gesto de carinho: “a família daquela senhora me convidou para um café muito especial, cheio de afeto, e fui presenteada com um vaso murano lindíssimo. Estavam todos muito gratos. Fiquei feliz por poder contribuir além do papel técnico. Ali, eu era um ser humano, não apenas a síndica.”

O entender o outro na sua existência é fundamental

Letícia reflete sobre a função do síndico: “sempre defendi que a sindicatura vai além da estrutura. Não era um cargo ali, era o cuidado com pessoas. A gente precisa entender as dores, desafios e expectativas do outro. Muitos moradores que apresentam problemas não o fazem por maldade, mas pelas suas vivências. É nosso papel promover conscientização e convivência harmoniosa. Não é fácil, mas faz parte do propósito. O reconhecimento nem sempre é financeiro — é saber que você fez o que era certo e ser valorizada por isso.”

Do ponto de vista da Psicologia, a empatia é intrínseca ao ser humano. De acordo com o psicólogo Danilo Lopes Jr., pós-graduando em conciliação e mediação de conflitos, da mesma forma que se pode desenvolver determinadas atitudes para se afastar das pessoas e do mundo, pode-se também desenvolver atitudes para se aproximar deles. E, sendo assim, a atitude mais correta nesse caso é cultivar uma atitude acolhedora, receptiva, continente, de amparo e de simpatia.

Danilo
Danilo reforça que somos naturalmente impelidos à ajuda e ao auxílio, mesmo em situações extremas e de emergência

“Quando nos sentimos amparados e acolhidos, por uma atitude simpática e receptiva, diante de nossas demandas ou sentimentos, sejam eles quais forem, naturalmente somos impelidos a nos aproximar de quem nos receba com essas características e atributos de comportamento e conduta, logo, a aproximação e a qualidade desse contato se estabelecem naturalmente, de forma a conduzir beneficamente esse relacionamento”, afirma Danilo.

O psicólogo fala também da questão da personalidade e do caráter, e de como isso pode influenciar as relações humanas: “os seres humanos possuem qualidades e atributos de personalidade e caráter, a depender de como se dá a ‘constituição de sujeito’ de cada um, em âmbito pessoal e subjetivo, e também em âmbito social. É dessa forma que o caráter de cada um é adquirido e constituído. Mas também somos seres filogeneticamente constituídos, ou seja, possuímos componentes genéticos que são próprios da espécie; sendo assim, somos naturalmente impelidos à ajuda e ao auxílio, mesmo em situações extremas e de emergência. Somos seres emocionais, dotados de um sistema límbico, estrutura cerebral responsável pelas emoções mais básicas de sobrevivência, como o medo e a raiva, mas também as mais superiores, como a empatia e o sentimento de altruísmo. No caso de um ambiente coletivo, como o condomínio, onde os síndicos estão sujeitos aos mais diversos tipos de ocorrência, é natural e esperado que eles, sendo moralmente constituídos, não se furtem de tal comportamento em prejuízo do senso humanitário e coletivo”.

 

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