O papel do síndico na construção das cidades

Mais do que realizar a gestão do condomínio, cada vez mais síndicos têm olhado para fora dos seus muros, buscando benefícios para toda a comunidade
Revitalização da quadra de basquete partiu de esforços da AMJA, moradores das redondezas da praça e empresas parceiras Revitalização da quadra de basquete partiu de esforços da AMJA, moradores das redondezas da praça e empresas parceiras

O síndico costuma estar constantemente envolvido com finanças, manutenção, segurança e outras responsabilidades do dia a dia, o que o prende à rotina administrativa do condomínio.

No entanto, é possível ir além. Poucos percebem o papel social que ele pode exercer além dos muros do edifício — como um agente transformador capaz de impactar positivamente toda a comunidade ao redor.

De acordo com dados do Censo 2022 divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos 7,6 milhões de residentes em Santa Catarina, 6,72 milhões (88,4%) habitam em zonas urbanas. Diante de um cenário de urbanização crescente e da necessidade urgente de espaços públicos bem cuidados e funcionais, o síndico pode (e deve!) se posicionar como uma figura-chave na construção e revitalização da cidade, pensando no bem-estar coletivo.

Teoria das janelas quebradas

A teoria das janelas quebradas postula que o vandalismo e a desordem visível em áreas urbanas, como janelas quebradas, podem levar a crimes maiores e a um aumento da criminalidade geral. Essa teoria sugere que a negligência na manutenção da ordem pública em pequenas infrações pode criar um ambiente propício para comportamentos criminosos mais graves. No caso de comunidades, a falta de manutenção de prédios, ruas e outros espaços públicos, pode indicar que os moradores não se importam com o ambiente, o que encoraja comportamentos criminosos.

Por conta disso, é necessária a percepção de que a vida dentro dos condomínios não acontece isolada — ela é diretamente influenciada pelo que está do lado de fora dos portões. Quando um bairro é bem cuidado, com ruas limpas, calçadas conservadas, iluminação adequada e espaços públicos ativos, isso gera uma sensação de ordem, pertencimento e segurança. Esses elementos, ainda que aparentemente externos, impactam profundamente o bem-estar dos moradores, o valor dos imóveis e até a forma como as pessoas se relacionam no dia a dia.

Por outro lado, basta observar o efeito que pequenos sinais de abandono podem causar. Um muro pichado, lixo acumulado na calçada, uma praça escura ou mal cuidada transmitem a ideia de que ninguém se importa — e isso tende a atrair comportamentos de descuido e desrespeito. O desleixo em áreas comuns do bairro reflete-se, inevitavelmente, na dinâmica interna dos condomínios: afeta a autoestima coletiva, aumenta a sensação de insegurança e desvaloriza o ambiente como um todo.

Por isso, preservar o bairro é mais do que um gesto comunitário — é uma ação estratégica. Quando moradores e síndicos se envolvem com o entorno, mobilizam vizinhos, participam de iniciativas locais ou cobram melhorias, eles não estão apenas embelezando o bairro, mas construindo uma base sólida para a qualidade de vida dentro do condomínio. Um ambiente externo organizado inspira cuidado interno. Cuidar do bairro é cuidar da nossa própria casa.

Essa atuação gera vínculos com o seu entorno e demonstra uma preocupação genuína com o espaço urbano. Nesse sentido, cada vez mais síndicos têm buscado iniciativas que ultrapassam os limites do condomínio, como a adoção de canteiros, praças e pequenos parques próximos. Com essa postura, o síndico se torna uma figura inspiradora, capaz de mobilizar moradores e colegas para formar uma rede de colaboração em prol de melhorias para a região onde vive. Assume, assim, o papel de articulador comunitário, conectando os interesses internos do condomínio às demandas da cidade.

O exemplo da AMJA

Um excelente exemplo do potencial transformador da organização comunitária é a atuação da Associação dos Moradores do Jardim Albatroz (AMJA), em Florianópolis. A entidade, formada por 26 condomínios associados, tem um papel relevante ao dialogar com o poder público em busca de melhorias. Nesse contexto, duas iniciativas da AMJA se destacam: a revitalização da Praça da Comunidade e a participação ativa na criação do Parque Linear do Córrego Grande. Há décadas, a associação cuida da Praça da Comunidade, mas foi além da simples conservação: transformou o espaço em um verdadeiro ponto de encontro para os moradores.

As melhorias implementadas incluem:

  • quadra de basquete;
  • quadra de esportes de areia;
  • campo de futebol;
  • parquinho infantil;
  • academia ao ar livre para idosos;
  • pet place, espaço dedicado aos animais de estimação;
  • quintal e pomares comunitários, que incentivam o cultivo coletivo e o contato com a natureza.

Todas as melhorias foram pensadas a partir das necessidades e sugestões da comunidade, tornando a praça o verdadeiro "coração" do bairro. O presidente da AMJA, Ivan dos Santos, reforça o papel dos gestores nesse processo:

"Como síndicos, temos o poder de ir além dos muros do condomínio e sermos agentes de transformação urbana. Participar da construção e preservação de praças e áreas verdes fortalece a comunidade, traz benefícios diretos para o condomínio e deixa um legado de qualidade de vida para as próximas gerações", afirma.

Leonardo
Leonardo reforça que a soma de forças e recursos possibilita vantagens para o bem coletivo

O síndico Leonardo Reis de Almeida, responsável pelo condomínio Plaza Barcelona, localizado próximo à Praça da Comunidade, associado à AMJA, também destaca os benefícios do envolvimento comunitário:

“Vivenciamos na prática que não somos ilhas um ao lado do outro e que, somando nossas forças — e até recursos —, conseguimos vantagens no coletivo e construímos um entorno melhor para nós, nossos filhos e os moradores das unidades.”

No caso da Praça da Comunidade, a quadra de basquete, por exemplo, pôde ser revitalizada por meio de esforços mútuos. Desta ação, participaram empresas como Tintas Verginia, Sicredi, Zanardo, Selfit, Carlessi, Fran imóveis, Casas do Cano, Cattoni Condomínios, Ademicon, Nápoles e Jornal dos Condomínios.

Mas como dar início a essa transformação?

Em Florianópolis, o Programa Adote uma Praça é uma iniciativa que promove parcerias entre a prefeitura, a Floram e entidades como a FloripAmanhã para revitalização de espaços públicos. Por meio dele, empresas ou associações podem adotar praças, parques e áreas verdes, assumindo sua manutenção e revitalização.

Salomao
Salomão afirma que a colaboração entre entre síndicos, associações e a comunidade é essencial para garantir que os espaços sejam utilizados de forma adequada

"A colaboração entre a FloripAmanhã, os síndicos, as associações e a comunidade é essencial para garantir que os espaços sejam utilizados de forma adequada e que as necessidades dos moradores sejam atendidas", destaca Salomão Mattos Sobrinho, presidente da FloripAmanhã.

A associação afirma que tem recebido cada vez mais manifestações de interesse por parte de entidades e síndicos em busca de apoio para melhorar suas comunidades.

Como funciona o programa:

  • Parceria público-privada: Estimula a colaboração entre a prefeitura e entidades privadas (empresas, associações etc.) para revitalizar espaços públicos.
  • Adoção de áreas: Praças, parques, áreas verdes e canteiros de ruas podem ser adotados por empresas ou associações, que ficam responsáveis por sua manutenção.
  • Benefícios para a comunidade: A adoção de áreas públicas melhora a qualidade de vida, oferece opções de lazer, aumenta a segurança e valoriza o espaço urbano.
  • Benefícios para as empresas: A empresa adotante pode divulgar sua marca no local, respeitando os critérios da Lei Cidade Limpa.
  • Como participar: Para adotar um espaço público, é possível entrar em contato com a FloripAmanhã ou procurar o Pró-Cidadão, abrindo um processo de adoção.
  • Responsabilidade do adotante: Cabe ao adotante garantir a manutenção e revitalização do espaço, incluindo fornecimento de mão de obra e materiais.

Essa é uma oportunidade para que síndicos e associações promovam impacto social positivo e deixem uma marca duradoura na cidade.

 

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