Turismo internacional redesenha a vida nos condomínios de SC

Alta de estrangeiros aquece o mercado imobiliário, pressiona a rotina dos prédios e exige mais profissionalismo na administração e na intermediação
Entre os principais obstáculos do turismo estrangeiro, a comunicação aparece como um ponto sensível Entre os principais obstáculos do turismo estrangeiro, a comunicação aparece como um ponto sensível

O aumento expressivo do turismo internacional em Santa Catarina, puxado majoritariamente por visitantes argentinos, trouxe impactos que vão além da hotelaria.

Nos condomínios residenciais, a alta ocupação durante a temporada de verão expõe desafios relacionados à segurança, à convivência e ao cumprimento das normas internas, ao mesmo tempo, em que aquece o mercado imobiliário e de locações.

De acordo com dados da Embratur, o Estado recebeu mais de 741 mil turistas estrangeiros em 2025, o que representa um crescimento de 50% em relação ao ano anterior. Segundo o presidente do CRECI-SC, Marcelo Brognoli, esse fluxo intenso de visitantes, especialmente de países vizinhos como Argentina, Chile e Paraguai, impulsionou fortemente a demanda por imóveis residenciais, de temporada e para investimento.

Marcelo Brognoli
Brognoli alerta para os riscos das locações feitas sem intermediação de um corretor habilitado

“Essa realidade impactou diretamente os números do ano passado, quando Santa Catarina reafirmou sua liderança no mercado imobiliário brasileiro, com valorização acima da inflação e presença constante no topo dos rankings nacionais”, destaca Brognoli.

Esse movimento é refletido nos preços. Conforme o Índice FipeZAP, o litoral catarinense liderou em 2025 o ranking das cidades com o metro quadrado mais caro do país, com destaque para Balneário Camboriú, Itapema, Itajaí e Florianópolis. Como consequência, a valorização também alcançou o mercado de locações, ampliando o número de contratos de curta duração e a circulação de moradores temporários nos condomínios.

Comunicação e gestão em ambientes multiculturais

A presença crescente de moradores temporários, seja em imóveis próprios, locações tradicionais ou por meio de plataformas como Airbnb, altera a dinâmica dos prédios e exige uma gestão cada vez mais profissional. Entre os principais obstáculos, a comunicação aparece como um ponto sensível.

Gustavo Camacho
Camacho afirma que muitas vezes existe um absoluto desconhecimento das regras brasileiras e do funcionamento do condomínio

Segundo o advogado Gustavo Camacho, especialista em questões condominiais, a chegada de estrangeiros impõe barreiras que vão além da logística. “Há falhas na compreensão das normas e diferenças culturais que podem gerar conflitos. Em locações por temporada, muitas vezes existe um absoluto desconhecimento das regras brasileiras e do funcionamento do condomínio”, explica.

Essa percepção é compartilhada por Brognoli, que defende a adoção de medidas preventivas já na etapa da locação. “É sempre recomendável que o novo morador conheça previamente as regras e o regimento interno. Prevenir é melhor que remediar”, pontua. Para ele, diante do aumento constante de estrangeiros, investir em comunicação visual bilíngue ou multilíngue pode ser um diferencial. “Essa é uma medida que ajuda a evitar problemas e ainda pode se tornar um atrativo a mais para conquistar novos moradores”, destaca.

Alta ocupação pressiona rotina e custos dos condomínios

Sindica Daniela Cunha 2
Daniela relata que na alta temporada prioriza a contratação de colaboradores que falem espanhol e inglês

Na prática, os reflexos da alta temporada são sentidos diariamente por quem está à frente da administração dos prédios. Síndica há mais de 19 anos na Grande Florianópolis, Daniela Cunha relata que o crescimento das locações para turistas estrangeiros impacta diretamente a rotina condominial. “Há aumento de despesas, necessidade de mais colaboradores e reforço na segurança. Muitas vezes não sabemos exatamente quem está ocupando as unidades, o que gera preocupação e conflitos relacionados ao uso das áreas comuns e ao descumprimento do regimento interno”, afirma.

Diante desse cenário, a gestão precisou se adaptar. “Intensificamos treinamentos, vistorias e controles. Em períodos de alta temporada, priorizamos a contratação de colaboradores que falem espanhol e inglês, justamente para facilitar a comunicação”, acrescenta Daniela.

MAximo Lacava Junior F
Máximo reforça que notificar proprietários em caso de problemas, evita confrontos diretos entre síndico e turistas

O síndico Máximo João Lacava Junior, com cinco anos de experiência na função em Balneário Camboriú, observa que o aumento da circulação de pessoas acelera o desgaste da infraestrutura. “Temos mais problemas de limpeza, circulação, barulho e festas fora de horário. Isso exige mais trabalho nos meses de verão e eleva os custos com manutenção”, relata.

Intermediação profissional como fator de segurança

Com o aquecimento do mercado de locações, o papel da intermediação profissional ganha ainda mais relevância. Para Brognoli, negociar com um corretor habilitado é a primeira barreira de segurança. “A checagem de documentação, capacidade financeira e a elaboração de um contrato bem feito são cuidados essenciais. No caso de estrangeiros, pode ser necessário verificar passaporte e status migratório, especialmente em estadias mais longas”, explica.

Segundo ele, a legislação exige que o contrato seja redigido em português, sendo recomendável a inclusão de cláusula que ateste que o locatário compreende o idioma. Brognoli alerta ainda para os riscos das locações feitas sem intermediação. “O Conselho tem ampliado o alerta diante do aumento de denúncias de intermediação ilegal, inclusive por parte de porteiros, zeladores e síndicos. Essa prática traz riscos não só para proprietários e locatários, mas para o condomínio como um todo”, afirma.

Embora não exista exigência legal para o fornecimento da ficha de hóspede pelo corretor, ele ressalta que essa obrigação pode estar prevista na convenção ou no regimento interno do condomínio.

Direito de propriedade x interesse coletivo

O equilíbrio entre o direito do proprietário de alugar seu imóvel e a preservação da coletividade aparece como um dos pontos centrais desse debate. De acordo com Camacho, o Código Civil garante ao proprietário o direito de usar, fruir e dispor do imóvel, inclusive por meio de locações por temporada, mas esse direito encontra limites.

“O uso da propriedade deve respeitar sua função social. O condômino tem liberdade para usar sua unidade, mas práticas que prejudiquem o sossego, a segurança e a salubridade dos demais podem ser restringidas com base na convenção, no regimento interno e no artigo 1.336, inciso IV, do Código Civil”, esclarece o advogado.

Na visão de Daniela, a chave para esse equilíbrio está na clareza das regras. “Normas bem definidas sobre locação, cadastro, horários e uso das áreas comuns fazem toda a diferença”, afirma. Já Junior reforça a importância de responsabilizar o proprietário. “Ele é sempre notificado em caso de problema. Isso evita confrontos diretos entre síndico e turistas”, pontua.

Um novo normal para os condomínios turísticos

Com o turismo internacional em ascensão, Santa Catarina consolida seu protagonismo no cenário global. Para os condomínios, o desafio está em se adaptar a esse novo normal, investindo em planejamento, comunicação, capacitação e segurança.

Dessa forma, a comunicação prévia aparece como consenso entre os entrevistados. Assim, Daniela avalia que muitos conflitos poderiam ser evitados com diálogo antecipado. “Quando tudo é alinhado com antecedência, muitos problemas deixam de existir”, analisa a síndica.

Essa postura também é adotada por Junior, que compartilha a metodologia utilizada nos condomínios em que atua. “No início de dezembro, já enviamos lembretes aos proprietários e mensagens aos moradores, reforçando regras e pedindo tolerância. Também encaminhamos mensagens de boas-vindas aos turistas”, relata.

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