Se a organização e a socialização são necessidades do ser humano, por que existe a falta de sentimento comunitário nos condomínios?
Mais do que em qualquer outro lugar, o condomínio oferece um ambiente propício para que se siga a tendência natural humana de viver em comunidade. A proximidade dos vizinhos e a intimidade praticamente forçada entre moradores existente em prédios e conjuntos deveria facilitar a integração dos moradores rumo à organização de um grupo que lutasse por seus objetivos comuns através de uma colaboração mútua. Essa conjuntura, no entanto, é pouco encontrada na maioria dos condomínios.
Pelo contrário: alguns dos maiores problemas de muitos edifícios são a falta de participação na administração, o desrespeito ao outro e o descaso com a conservação da propriedade coletiva. A presença de condôminos em assembleias costuma ser escassa. Eventos para integração, como encontros e festas, também são raros. Poucos conflitos entre vizinhos são resolvidos com diálogo e bom senso.
Sentimento comunitário
Se a organização e a socialização são necessidades do ser humano, por que ocorre toda essa falta de sentimento comunitário nos condomínios? A resposta certamente não está dentro dos prédios, e sim em uma inclinação da sociedade em sua totalidade. O condomínio é apenas mais um espaço de contato social, como a escola ou o local de trabalho, que reflete o espírito contemporâneo.
"Vivemos em uma sociedade neoliberal, em que se prega o perfeccionismo e o 'cada um por si'", explica o psicólogo Dennis dos Reis, que trabalha com grupos comunitários e associações de moradores. O imediatismo, a ênfase na competitividade e no sucesso e a valorização da cultura do individualismo ajudam a provocar a situação.
Essa soma de fatores faz com que a importância do contato simples e rotineiro com o outro vá diminuindo no dia a dia. Apartamento vira praticamente um sinônimo de isolamento. A rede de relações de cada pessoa não se expande justamente no ambiente que deveria ser visto como a casa de uma grande família: o prédio ou conjunto residencial. O ritmo do dia a dia faz com que o indivíduo prefira formas de lazer mais retraídas, menos importantes do ponto de vista da sociabilidade, como a TV ou smartphone.
Relações sólidas
Reverter essa propensão à solidão no condomínio traz benefícios para todos. Construir relações sólidas com os vizinhos não é apenas um detalhe na rotina, e sim uma forma de buscar a qualidade de vida. Afinal, dentro de um grupo, conquistada a inserção social, a pessoa - no caso o condômino - se sente mais protegida, segura e livre.
Um vizinho amigo, por exemplo, mais do que alguém para se socializar, é um indivíduo em que se possa depositar confiança. É um aliado na proteção do prédio e na prevenção a possíveis riscos e que poderá prestar auxílio em caso de problemas. Em suma: atitudes cotidianas ficam muito mais fáceis de serem realizadas quando se está em um grupo.
A integração também reduz as possibilidades de atritos entre vizinhos. "Quando um conhece o outro, há uma chance muito maior de agir com ele de forma compreensiva, mais tolerante e respeitosa", diz o psicólogo Cristian Santini, que estuda psicologia social. Se, por exemplo, uma família mantém uma relação próxima com uma idosa vizinha com problemas de saúde, eles saberão respeitar o direito à tranquilidade da amiga, até por se tratar de uma necessidade. O envolvimento gera a tolerância e a consideração com o outro. Esse fator é muito mais eficiente no convívio pacífico no prédio do que leis bem articuladas ou um aparato para reprimir o infrator. Regras elaboradas com pouca participação têm uma chance muito maior de serem desrespeitadas. O regimento tende a não funcionar por si só. O meio formal de punição, aliás, pode se mostrar inócuo e ter o efeito inverso: ajudar a aumentar a tensão.
Assim como a justiça convencional, no condomínio o mecanismo de aplicação de uma pena tende a ser lento e pode ser definido quando o problema se agravou ou já foi resolvido. O uso isolado de mecanismos de repressão também estimula o comportamento imaturo dos condôminos de não cometer uma falta apenas para evitar um castigo, sem perceber a importância para o bem-estar geral de se agir de maneira adequada. Quando há comprometimento comunitário, surge também uma consciência sobre atitudes antissociais e nocivas ao grupo. O problema do mau comportamento diminui, evitando o desgastante caminho da aplicação da pena.
Integração
Com a integração comunitária, o bom senso passa a prevalecer e o possível estresse da convivência forçada é reduzido. Para o psicólogo Dennis dos Reis, a existência de um relacionamento faz com que seja mais racional o gerenciamento das divergências, já que a extinção delas é praticamente impossível. "A paz não é a ausência de conflito, é o equacionamento das tensões, a capacidade de resolver os atritos", fala.
E não é só com procedimentos do dia a dia que uma mudança na socialização auxilia. É unânime a ideia de que a vida em comunidade proporciona uma série de benefícios à saúde mental de cada indivíduo, como o aumento da autoestima e a prevenção de problemas emocionais e afetivos.
A socialização é algo tão fundamental quanto natural no ser humano. É uma disposição imutável buscar formas de organização coletivas, de associação, como o estado e até um condomínio. Não há como surgir satisfação vivendo de forma solitária. O melhor, então, é pavimentar o caminho para os relacionamentos. "A felicidade só brota se for de um grupo", diz Dennis dos Reis.
Alternativas
A falta de vocação para a vida comunitária é um problema que tende a começar desde cedo, com a educação das crianças. Depende de cada família estimular a participação, a integração e o respeito ao outro. É no ambiente doméstico que se ensina a viver em grupo. Se a criança aprende desde cedo a agir de forma excludente com a família, é uma consequência isso acontecer também em um espaço secundário de socialização como o condomínio. "Quem não está preparado para viver em grupo, leva para a vida lá fora certos vícios", diz o psicólogo.
O síndico, como personagem de liderança dentro do condomínio, precisa fomentar o caminho para que ocorra mais integração. É fundamental ter uma preocupação constante com o humanismo na gestão. Não se deve reduzir a administração do prédio a rotinas burocráticas semelhantes às de uma empresa. Para ser bem-sucedido, não basta apenas pagar corretamente as contas. O síndico tem que pensar no conjunto como um organismo vivo, um grande lar. Um dos requisitos para assumir o cargo deve ser a habilidade de manter contatos pessoais e de boa comunicação.
Uma boa forma de estimular o espírito comunitário é organizando eventos dentro do condomínio. Há possibilidade de se realizar variados tipos de festas para a confraternização dos condôminos, desde churrascos e jantares até comemorações por datas especiais. "É preciso haver mecanismos para que surja a integração e o contato seja viabilizado", diz o psicólogo Cristian Santini. Ele sugere eventos como a "Hora do Lazer" para crianças, "Dia do Vizinho" ou a organização de torneios esportivos - algo que frequentemente desperte a atenção e mobilize a comunidade.
Claro que as diferenças de perfil e personalidade entre condôminos acabam dificultando a desejada comunhão. A maioria dos condomínios é formada por moradores que adquiriram apartamentos pela atratividade financeira, sem ter estudado o ambiente ou as características de seus proprietários, o que faz com que exista uma grande diversidade de indivíduos.
Mas é perfeitamente possível conciliar valores diferentes e tolerar o outro. Cada um deve se desenvolver com o outro, espelhando-se como um grupo. "Viver em comunidade é um exercício de flexibilização, de ponderação, de paciência", diz Dennis dos Reis.
Agir de forma coletiva esteriliza a comunidade dos problemas, estimula a participação no ambiente em que se vive e tende a ser muito mais eficiente do que atitudes solitárias. Os vizinhos estão ao lado e - goste-se ou não deles - eles permanecerão no mesmo local. Independente do grau de dificuldade, a integração comunitária é o único caminho para um dia a dia com mais tranquilidade e qualidade de vida.
Construir boas relações entre os moradores é uma alternativa
“Respeito em favor da coletividade é primordial. O condomínio é a extensão da sua casa, porém as regras são feitas para serem cumpridas, o bom senso entre os moradores favorece o respeito mútuo, gerando uma convivência mais harmoniosa. Se colocar no lugar do outro, ser cordial e buscar o consenso ainda é o melhor meio de comunicação.
Costumo sempre dizer aos meus condôminos que o nosso vizinho é o nosso parente mais próximo. A relação entre nossos moradores é muito boa. Em 16 anos como síndica, nunca aconteceu uma briga em reunião ou fora dela. Tenho certeza absoluta que tudo acontece da forma como você chega nas pessoas, se eu te recebo bem, você me recebe bem, a forma de tratar é tudo”.
Angela Maria Heidinger Stefanes, síndica do Condomínio Residencial Pérola em Itajaí
“Incentivar um bom relacionamento entre os moradores para mim que tenho facilidade em me comunicar com as pessoas é fácil, porque acho que é só ter empatia e sempre se colocar no lugar do outro. E sempre ter boa vontade de se relacionar e participar de tudo o que acontece no condomínio. Todo condomínio sempre tem um que gosta de encrenca, mas no geral todos se relacionam bem e estão sempre dispostos a ajudarem uns aos outros.”
Maria Graça Deckert, síndica do Condomínio Mário Boese e do Edifício Marrocos em Balneário Camboriú