O Diabo Veste Prada e as eleições nos condomínios: quando a gestão vira estratégia

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Desde o lançamento de The Devil Wears Prada, muita gente voltou a discutir poder, influência, posicionamento e disputa por espaço profissional. Mas, enquanto assistia ao filme, uma coisa me chamou atenção além do universo da moda: a forma como as relações são construídas estrategicamente nos bastidores.

No filme, quase nada acontece de maneira espontânea. Existe disputa por visibilidade, construção de imagem, alianças silenciosas, movimentações calculadas e uma preocupação constante em permanecer relevante dentro daquele ambiente altamente competitivo. E, sinceramente, foi impossível não pensar nas eleições condominiais atuais.

Durante muito tempo, a escolha de síndicos acontecia de forma simples. Normalmente alguém aceitava a função por necessidade do condomínio e poucos moradores demonstravam interesse real na administração. Hoje, a realidade mudou completamente. Em muitos empreendimentos, especialmente os maiores, as eleições passaram a envolver articulação, posicionamento estratégico e campanhas que começam muito antes da assembleia.

Assim como no filme, a imagem passou a ter enorme peso. Há síndicos que trabalham presença constante nos grupos internos, fortalecem relacionamento com moradores específicos, investem em comunicação, acompanham cuidadosamente a percepção dos condôminos e constroem apoio silenciosamente ao longo do mandato. Em alguns casos, a campanha não começa na convocação da assembleia. Ela acontece diariamente nos corredores, elevadores e mensagens de WhatsApp.

A disputa por espaço e influência

Talvez uma das conexões mais interessantes com o filme esteja justamente na necessidade permanente de permanecer relevante. Em “O Diabo Veste Prada”, ninguém queria apenas trabalhar na Runway. Todos queriam espaço, reconhecimento, influência e permanência naquele ambiente de poder.

Nos condomínios, guardadas as devidas proporções, a lógica muitas vezes começa a se aproximar disso quando a gestão deixa de ser apenas administrativa e passa a envolver capital político interno. O síndico profissional passou a ocupar uma posição de maior visibilidade, responsabilidade e influência. E isso naturalmente tornou as eleições mais competitivas.

O problema é que, junto com a profissionalização, também surgiram comportamentos muito semelhantes aos das disputas políticas tradicionais. Grupos se formam, narrativas são construídas, opositores se fortalecem e, algumas vezes, o ambiente condominial passa a viver uma tensão silenciosa mesmo fora do período eleitoral.

Existe uma cena do filme em que todos ao redor de Miranda Priestly parecem medir cada palavra e cada movimento para não perder espaço. Observando algumas assembleias atualmente, confesso que às vezes a sensação é parecida. Há disputas que deixam de ser apenas sobre gestão e passam a envolver vaidade, influência e poder.

O risco das campanhas permanentes

Claro que profissionalizar a administração condominial é extremamente positivo. Hoje, síndicos administram contratos relevantes, equipes, obras, conflitos internos, questões jurídicas e orçamentos milionários. Isso elevou o nível da gestão e também aumentou a exigência dos moradores.

Mas existe um risco quando a estratégia passa a ocupar espaço maior que o próprio interesse coletivo. Em alguns condomínios, a preocupação em manter apoio político constante acaba criando ambientes desgastantes, marcados por disputas silenciosas, divisão entre grupos e campanhas permanentes de convencimento.

E talvez esse seja o ponto mais interessante da comparação com o filme. Em The Devil Wears Prada, a pressão não vinha apenas do trabalho. Ela vinha da necessidade contínua de se manter relevante naquele sistema. Nos condomínios, isso também pode acontecer quando a gestão deixa de ser conduzida com foco institucional e passa a girar em torno da permanência no poder.

Entre gestão e poder

Ao terminar o filme, fiquei pensando que os condomínios mudaram muito nos últimos anos. O síndico deixou de ser apenas um representante informal dos moradores e passou a ocupar um espaço técnico, estratégico e altamente exposto. Isso é positivo. O problema começa quando o ambiente condominial se transforma em disputa permanente.

No fim, a eleição deveria continuar sendo sobre preparo, equilíbrio e capacidade de gestão. Porque, diferente do cinema, quem sofre os impactos das disputas internas são os próprios moradores.

Cleuzany Lott é advogada, com especialização em Direito Condominial, atua também como síndica, jornalista e palestrante.

 

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