Ascensão e queda do condomínio clube, e a nova moda no mercado imobiliário: condomínio wellness

Moda do condomínio clube dá lugar ao condomínio ‘wellness’. Foto: Bigstock Moda do condomínio clube dá lugar ao condomínio ‘wellness’. Foto: Bigstock

Um dia alguém teve a ideia de juntar uma piscina, uma quadra, uma sauna, uma academia e o que mais fosse a um prédio. Nascia o condomínio clube. De lá para cá o seu sucesso tem sido imenso: é bem improvável hoje acompanhar um lançamento imobiliário que não contenha algumas dessas benesses sob a forma de espaços de lazer.

Se no início eram poucas as áreas, agora são muitas e os anunciantes apregoam mais e mais áreas de lazer, competindo em quantidade e não qualidade. Há exageros, claro. Por exemplo, o que seria um espaço zen? E um espaço mulher? Espaço bricolagem? Por que não um espaço barba, então?

Não há limites para a criatividade de tantos espaços, mas talvez sim para o seu uso. A maior parte deles ou ficará ociosa ou será apenas descartada pelos moradores finais, perdendo eles o jogo por W.O.

Além disso custa manter tantos espaços e mais ainda, administrá-los. Pense no trabalho de agendar uma churrasqueira externa – sábado, digamos - em um condomínio de 300 apartamentos.

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A piscina do condomínio nem sempre é utilizada pelo moradores. Foto: Bigstock

Há ainda o déficit das imagens: aquilo que o consumidor compra e aquilo que a empresa entrega. O Jardim da Contemplação é uma bica vazia. O Espaço Pet, um gramado com uma argola de metal. O Garage Band é só um porão pintado de preto mesmo. A tal ponto de que a inflação de condomínios clubes acabou gerando também seus detratores e suas variâncias.

É claro que há um quê de esnobismo nisso tudo. Em nossas pesquisas, sobretudo para as menores rendas, de fato a possibilidade de juntar espaços diversos de uso comum melhora a qualidade de moradia e a integração de seus moradores. Nada como quadras de esporte e academias para favorecer o bom “contágio” (uso essa palavra agora com cuidado).

E de fato, para muitos trata-se mesmo de economia real, visto que pagar por academias, salões de belezas, locação de quadras e mesmo pelos deslocamentos resultantes em ir até os centros das cidades é um luxo não passível de ser incorrido.

Mas sendo franco, também a alta renda gosta e goza de seus espaços privativos de lazer. Agora menos sob o manto da quantidade e sim da qualidade, da privacidade.

Há piscinas em condomínios de elite que apenas uma ou duas famílias utilizam. O mesmo para salões de festas ou áreas gourmet que realmente têm um uso mais limitado – o que não significa que não seja atraente para o morador de alta renda.

O fato mesmo é que os condomínios clubes estão aí porque vendem. Pergunte para qualquer corretor e ele dirá como as imagens de lazer ajudam a vender. Pode ser que não usem o espaço comprado, mas ainda assim compram. E isso é (quase) tudo o que importa na hora da venda.

Mas as modas vêm e vão embora, como é de sua natureza (alguém aí lembra dos autoproclamados “neoclássicos?”). Há - começamos agora a divisar - um novo candidato a substituir o condomínio clube. É o tal do condomínio wellness (seja lá o que isso for).

É a assim chamada qualidade de vida, entrando pela porta da frente. Selos wellness, ambientes wellness, desenho de interiores e espaços wellness, tudo o mais passa agora a conter essa partícula qualificadora como signo de bom ambiente, preocupação com bem estar; um mergulho no conceito de saúde humana plena.

Muito bom, não é? Só que, por enquanto, meio caro – só permissível para aquela fatia da pirâmide que acha meio brega essa coisa de condomínio clube – até que se generalize, esperemos, talvez, a disseminação do estilo wellness (seja lá o que venha isso a significar daqui pra frente).

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Ventilação e iluminação natural abundantes são uma das chaves do conceito wellness nos novos empreendimentos imobiliários. 

O fato é que o wellness parece estar fazendo sentido. E a pandemia ajudou nessa consciência, que já vinha sendo inscrita em nosso zeitgeist: a preocupação real com o bem estar dos moradores. A casa não como uma máquina de morar como queria Le Corbusier, mas sim como uma cultura do viver e um centro de vida saudável. Há substância por trás disso.

Pode ser que queimemos as florestas e poluamos os risos, mas nos ressentimos disso. Você pode ver hipocrisia nisso e um jogo de mercado apenas, mas de fato é preciso mudar o que estamos fazendo.

Isso significa o fim do condomínio clube e o início do wellness? Talvez sim, talvez não; talvez apenas uma adaptação. Mas por certo trata-se de um signo do que precisaríamos fazer, migrando de uma cultura super hedonista, para uma cultura mais responsável. Utopia? Sonho? Ah, mas vale lembrar, a vida é feita de sonhos também.

Vamos acompanhar os próximos anúncios do mercado, porque eles trazem a sinceridade de suas promessas estampada na face.

E até lá: bem vindo ao wellness (o que quer que isso venha a ser para você).

Marcos Kahtalian é sócio-fundador da Brain Inteligência Estratégica.

Fonte: Gazeta do Povo

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