Piscinas, limpeza e risco invisível: o alerta sobre o uso de produtos químicos em condomínios

Erros e descuidos no tratamento da piscina podem transformar o lazer em uma ameaça silenciosa à saúde coletiva
O uso incorreto de produtos químicos podem trazer risco de acidentes, prejuízos ao patrimônio e responsabilização do condomínio Foto: Freepik O uso incorreto de produtos químicos podem trazer risco de acidentes, prejuízos ao patrimônio e responsabilização do condomínio Foto: Freepik

A morte de uma mulher e a internação de outras quatro pessoas após a aula de natação em uma academia de São Paulo acenderam um alerta que vai além do ambiente esportivo. A suspeita é de que a manipulação inadequada de produtos químicos, próxima à área da piscina, tenha liberado um gás tóxico no ambiente fechado, provocando asfixia nas pessoas que estavam ali.

O episódio trouxe à tona um risco que também está presente em condomínios: o uso incorreto de produtos químicos, seja para tratar a água da piscina, higienizar as caixas d’água ou fazer a limpeza das áreas comuns. Um perigo invisível, silencioso e potencialmente fatal.

Em muitos prédios, essas tarefas são executadas por funcionários que aprendem na prática e não têm domínio das reações químicas envolvidas ou das exigências técnicas. Em Santa Catarina, normas sanitárias (como a Resolução Normativa nº 004/2022) exigem monitoramento contínuo, registros documentados e responsabilidade técnica. Junto ao Conselho Federal de Química, a norma prevê que piscinas coletivas tenham acompanhamento profissional formalizado por meio de Anotação de Responsabilidade Técnica (ART).

Apesar disso, muitos condomínios ainda operam sem procedimentos formalizados. Há quem subestime os riscos ali presentes e trate a atividade como algo simples, guiado apenas pela experiência prática. O custo, a falta de fiscalização efetiva e a falsa ideia de que se trata de algo sem complexidade acabam servindo de justificativa para a ausência de protocolos, registros e acompanhamento profissional.

Na prática, porém, as consequências podem ser severas. Água mal tratada favorece infecções intestinais, alergias, irritações na pele, problemas respiratórios e, em situações extremas, até a morte.

“Piscina não é só um item de lazer do condomínio. É também uma responsabilidade à saúde dos banhistas”, explica a engenheira química Aline Klas, proprietária da Aquali Engenharia e Assessoria Química.

Os impactos vão além da saúde. O uso inadequado de produtos compromete o patrimônio, acelera o desgaste de estruturas (como rejuntes e azulejos), gera infiltrações e eleva os custos de manutenção. E há os reflexos jurídicos: o síndico pode responder civil e criminalmente em casos de intoxicação, contaminação ou acidentes.

Rosilene Roiek
Para a síndica Rosilene, o investimento em acompanhamento técnico é indispensável.

Para a síndica Rosilene Roiek, o investimento em acompanhamento técnico é indispensável. “O custo é pequeno diante da responsabilidade envolvida. O risco humano e jurídico de não ter acompanhamento técnico é significativamente maior”, afirma.

No condomínio que administra, há uma rotina rígida de prevenção. O tratamento é feito por zeladores treinados que recebem orientação contínua de profissional habilitado. Há controle documentado, análises periódicas, produtos regularizados e armazenamento adequado. O mesmo acontece com as caixas d’água. “Levamos qualquer relato a sério. Qualquer alteração de cor, turbidez ou relato de irritação já é motivo para suspender o uso até avaliação técnica”, explica.

Após a tragédia em São Paulo, os protocolos internos foram novamente revisados. “Assim que a notícia veio a público, acionamos o químico responsável, revisamos estoque, aplicação e dosagens, realizamos novos testes e reforçamos as orientações. Não houve irregularidades, mas episódios assim servem de alerta para a vigilância constante”, conclui.

Tratar a piscina não é só uma simples limpeza

Nos condomínios, o tratamento da piscina não pode ser visto como um serviço simples ou meramente operacional. Esse é um erro comum, mas perigoso. Não se trata apenas de limpar ou remover a sujeira, mas de lidar com uma atividade que envolve riscos reais.

Aline Klas  2
Aline afirma que piscinas de uso coletivo precisam atender a padrões físicos, químicos e microbiológicos.

A manutenção envolve processos químicos, parâmetros técnicos e exigências legais que devem ser rigorosamente respeitados. “Piscinas de uso coletivo precisam atender a padrões físicos, químicos e microbiológicos. Ignorar isso é descumprir normas sanitárias e colocar pessoas em risco”, afirma Aline.

Segundo ela, o controle de pH e cloro exige conhecimento técnico e capacitação específica. Tanto o excesso quanto a deficiência desses parâmetros podem comprometer a saúde e a segurança dos usuários. Em ambos os casos, cria-se uma falsa sensação de segurança. “A água pode parecer limpa, transparente e em boas condições, mas ainda assim estar contaminada ou imprópria para uso”, alerta.

Diante de qualquer suspeita, a orientação é suspender imediatamente o uso.

Para os síndicos, a principal recomendação é garantir que a piscina opere dentro dos padrões exigidos, com controle documentado e acompanhamento profissional. Mas os moradores também podem exercer um papel importante na prevenção. Antes de entrar na água, é recomendável observar se a piscina está límpida, sem odor forte e se há informações visíveis sobre manutenção, data da última análise e indicação de responsável técnico.

O perigo das misturas e dos gases tóxicos

O caso da academia em São Paulo expôs também outro risco muito comum: a prática de misturar produtos químicos como forma de “reforçar” a limpeza. Essa conduta, no entanto, pode provocar reações violentas, com liberação de gases tóxicos, explosões e risco imediato à vida.

Prof Viviani 2
Osmar alerta que misturar produtos quimicamente incompatíveis entre si podem provocar reações exotérmicas, explosões e liberação de gases perigosos.

Para o consultor técnico Osmar Viviani, do Instituto Catarinense de Educação Profissional (ICAEPS-SC), o hábito de fazer misturas ainda é bastante comum. “Muita gente acredita que isso facilita a limpeza porque fazem assim há anos em casa. Mas, em ambientes coletivos, o impacto é muito maior e pode ser fatal”, afirma.

Segundo ele, quando o cloro é misturado com ácidos ou produtos alcalinos, o risco de liberação de gás cloro (uma substância altamente tóxica) aumenta de forma significativa. Além disso, existem diferentes tipos de cloro no mercado, que são quimicamente incompatíveis entre si. Hipoclorito, dicloro e tricloro, por exemplo, jamais devem ser combinados, pois podem provocar reações exotérmicas, explosões e liberação de gases perigosos.

O cuidado também deve se estender ao armazenamento. Produtos químicos precisam ser mantidos em locais secos, ventilados, sinalizados e separados de substâncias incompatíveis. O descuido nessa etapa pode desencadear reações espontâneas, vazamentos, incêndios e liberação de gases tóxicos. Além disso, a exposição a eles causa irritação nos olhos e nas vias respiratórias, tosse persistente, náuseas, tonturas, vômitos e dificuldade respiratória. Em casos mais graves, há risco de comprometimento pulmonar e até falência respiratória.

 

Sinais de alerta: quando suspender o uso da piscina

Alterações na água podem indicar falhas no tratamento e riscos à saúde. Diante de qualquer um dos sinais a seguir, o uso da piscina deve ser suspenso imediatamente até avaliação técnica especializada:

    • cheiro forte de cloro;
    • água turva ou com mudança de cor;
    • ardência, coceira ou irritação nos olhos e na pele;
    • formação excessiva de espuma na superfície.

 

EPIs são obrigatórios para quem manipula produtos químicos

O manuseio de produtos químicos sem proteção adequada expõe trabalhadores a riscos graves, como queimaduras químicas, irritações respiratórias, dermatites, lesões oculares e intoxicações por inalação.

Para reduzir esses riscos, é obrigatório o uso dos seguintes Equipamentos de Proteção Individual (EPIs):

    • luvas resistentes a agentes químicos;
    • óculos de proteção ou protetor facial;
    • máscara ou respirador compatível com o produto utilizado;
    • avental ou macacão impermeável;
    • calçados fechados e antiderrapantes.

 

Passo a passo para armazenar produtos químicos com segurança

O armazenamento inadequado de produtos químicos aumenta o risco de vazamentos, incêndios e intoxicações. Para evitar acidentes, os condomínios podem adotar alguns cuidados básicos, como, por exemplo:

    • utilizar espaço exclusivo, como almoxarifado ou depósito de material de limpeza, que seja seco, ventilado, fresco e protegido do calor, de umidade e de fontes de ignição;
    • manter prateleiras elevadas e armários trancados, restringindo o acesso a pessoas não autorizadas;
    • evitar guardar produtos em áreas de circulação, banheiros, cozinhas ou próximos a alimentos;
    • conservar as embalagens originais, com rótulos legíveis, e nunca reutilizar recipientes, que podem levar a trocas e confusões;
    • separar substâncias incompatíveis, como cloro e amônia, prevenindo reações perigosas.

 

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